terça-feira, março 30, 2004

Sobre o Dia do Estudante

Não considero que esta carta que o Bruno me deu a conhecer em tempos e que a chegou a publicar no Público seja uma carta apenas para a "Direita" do nosso país, mas fundamentalmente, uma carta para todo um povo deliberadamente adormecido, indiferente, ignorante e inconsciente face aos problemas da sua comunidade.
Uma carta de preocupação e treze parágrafos de reflexão num dia que é pelo estudante…



Carta à Direita do Meu País
Por BRUNO CARAPINHA*

Segunda-feira, 24 de Novembro de 2003

"Cara Direita Portuguesa,

Trato-te por tu, porque nos conhecemos já há muito tempo. Nasci há vinte e cinco anos, num país dos arrabaldes geográficos da Europa que ficou, durante décadas, nos arrabaldes do desenvolvimento económico da 2ª metade do século XX e das conquistas sociais, democráticas e civilizacionais do mundo. Meus avós são gente da província, esforçada e inculta, que migrou para os arrabaldes de Lisboa para livrar a vida da pobreza. E meus pais são os últimos filhos do Estado Novo, viveram nos arrabaldes da capital, do acesso à educação, à cultura, ao conforto e ao dinheiro. Sei que não te impressionas - este é o percurso da ascendência de milhares de jovens da minha idade.

Sou um estudante do Ensino Superior. Atravessei o mandato de seis ministros e três mandatos de dois reitores, vivi a suspensão das propinas, conheci a paixão guterriana e a subsequente desilusão, envolvi-me no associativismo estudantil, nos órgãos de gestão universitários, na vida pública e política e na intervenção social neste país. Já não tenho funções na Direcção da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e estou receoso pelo futuro do Ensino Superior Público (ESP) e do próprio país como não estive antes.

Vejo essa tua pressa em legislar, atropelando prazos de discussão e parceiros sociais, vejo as orientações e a política para o sector e percebo que o constrangimento financeiro das universidades não decorre de nenhuma conjuntura difícil, antes corresponde a um instrumento estratégico para o objectivo da desestruturação do ESP. Vejamos porquê.

O objectivo de democratização do acesso e da frequência do Ensino Superior está constitucionalmente garantido. Ultrapassa, portanto, o âmbito de políticas conjunturais de um Governo - é um objectivo da República. Ora, o recente corte cego das vagas de acesso ao ESP contraria este objectivo. Conjugado este corte das vagas com o aumento das propinas, que agrava as despesas das famílias portuguesas (por sinal, as famílias da União Europeia que mais despesas suportam com a educação dos filhos), e com a aplicação de prescrições que expulsam os estudantes do sistema (sem fazer um estudo sério sobre as reais causas do insucesso escolar), os resultados só podem ser a diminuição dos cidadãos abrangidos pelo ensino público e a manutenção da quota de "mercado" do ensino privado.

Torna-se claro que a tua acção imediata e conjuntural põe em causa um objectivo constitucional. Mas, a médio prazo, anunciam-se situações ainda mais dramáticas, pois a previsão de crescimento zero do orçamento para o Ensino Superior até 2006 só pode significar mais cortes orçamentais, mais cortes nas vagas, mais aumentos de propinas e expulsão de estudantes devido às prescrições, asfixiando e descapitalizando o ESP, privando o povo português do acesso a uma formação superior democratizada e de qualidade.

Por outro lado, a Lei de Financiamento visa claramente abrir as portas à privatização do ESP. Abriste esta guerra há mais de dez anos, depois de orientações internacionais apontarem para a transformação do Ensino Superior num mercado, e pareces querer terminá-la. A aplicação bem sucedida das propinas do governo Guterres abriu a porta para este capítulo da mesma guerra. Mas, com a indexação das propinas à qualidade dos cursos, a noção de propina - taxa de frequência do ESP, supostamente responsabilizadora dos estudantes, é substituída por uma noção de propina - parte do preço do curso que o estudante paga para o "comprar", sendo que o Estado suporta o remanescente do custo global (por enquanto...).

Ao mesmo tempo, fazes um corte orçamental que obriga as instituições a recorrer às propinas para pagar salários de docentes e funcionários (por sinal, funcionários públicos que devia ser o Estado a sustentar) e atiras para as escolas a tarefa de definir as propinas, criando uma guerra entre conselhos directivos e associações estudantis, fomentando a instabilidade na vida das instituições e a desarticulação das relações de solidariedade entre os corpos académicos. E, como se não bastasse os aumentos das propinas serem astronómicos, foram ainda indexados ao valor das propinas de uma lei do Estado Novo de 1941, período em que o ESP estava reservado a uma elite bem nascida! Quase como quem sente saudades do passado...

Dir-me-ás que o ESP continua a ser coisa de privilegiados ou ricos. Respondo-te que, com o fim do numerus clausus global, entra no ESP cada vez mais gente de classes mais baixas e que as propinas têm um impacto decisivo na vida dos estudantes, muitas vezes empurrando-os para fora do sistema de ensino ou para trabalhos a tempo parcial ou total, provocando uma maior demora na conclusão do curso.

Dir-me-ás que para os carenciados existe a Acção Social Escolar e que ninguém será excluído. Respondo-te que as cantinas e as residências cobrem uma ínfima parte das necessidades, que há milhares de estudantes entregues à especulação imobiliária, que outros foram sendo forçados a trabalhar para continuar a estudar e que outros ainda foram desistindo nos últimos anos. Respondo-te que as bolsas são miseráveis e injustas porque se baseiam num sistema fiscal reconhecidamente viciado e desigual para proprietários, profissionais liberais e trabalhadores por conta de outrem.

Dir-me-ás que não há recursos no país para sustentar o ESP. Respondo-te que é assustador o tamanho da economia paralela, que milhares de empresas declaram ano após ano ausência de rendimentos, mas mantém-se em funcionamento, que em Portugal a evasão é acompanhada de benefícios fiscais e de má gestão dos dinheiros públicos. Respondo-te que é urgente realizar uma reforma fiscal neste país, não só para aumentar os recursos postos ao dispor do Estado e para moralizar o ambiente social, como ainda para responsabilizar as empresas pelo sustento da formação qualificada dos portugueses que as beneficia directamente. E respondo-te ainda que, mesmo que os recursos disponíveis fossem só os que temos neste momento, o ESP é suficientemente importante para motivar uma opção política e estratégica de apoio ao seu desenvolvimento e abertura.

Se me dizes que há diplomados a mais, respondo-te que temos das mais baixas taxas de toda a União Europeia. Se me dizes que um curso superior é uma mais valia pessoal que deve ser paga, mostro-te as taxas de diplomados sem emprego. Se me dizes que os outros não têm de pagar os cursos dos estudantes, respondo-te que é um investimento que o Estado (o conjunto organizado de cidadãos) deve fazer em si mesmo (i. e., todos os cidadãos sem exclusões) e que não se trata de um direito individual e sim de um direito colectivo do povo português.

Defender o Ensino Superior Público Português e a democratização do acesso de todos os cidadãos a este nível de formação com um bom nível de qualidade não exige que se seja de esquerda. Basta que se seja inteligente. E minimamente patriota. Tu que andas sempre com a pátria na boca, como quem anda com o credo, deixa-te de contratos milionários de armamento, de funerais dos últimos "heróis" do Império, de manobras à volta da Constituição e da subversão do progresso do último quartel de século. Trata do que é urgente e estratégico! A aposta séria na inteligência, criatividade e formação dos portugueses de todas as classes sociais é a única forma de ultrapassar o atraso português. Abrir portas à privatização do Ensino Superior vai representar o enterro definitivo das poucas hipóteses que este povo tem para triunfar.

Começou, há vinte e nove anos e meio atrás, este espectáculo da democracia. Hoje são talvez mais os que assistem na plateia que os que continuam no palco. Mas, antes como hoje, a peça a que assistimos é este confronto para romper com o Portugal atrasado e periférico, é esta luta pela saída do arrabalde em que continuamente nos vão aprisionando. E é por isso que os estudantes te resistem nesta guerra da mercantilização do ESP que começaste há mais de dez anos. E é também por isso que te prometo uma oposição pessoal viva, veemente, tenaz. Não por causa do meu arrabalde pessoal, felizmente ultrapassado. Mas contra o arrabalde em que ainda vive o povo da minha terra."


* Bruno Carapinha - Estudante do Ensino Superior.

segunda-feira, março 22, 2004

E se o amanhã não chegar?

Recentemente, um acontecimento na vida de uma colega minha chocou-me. Foi uma daquelas "situações limite" - a morte inesperada de um ente querido - em que, de repente, tudo passa a ser racional e cada situação vivida com uma atitude puramente determinista. Mas o que é que andamos cá a fazer? Para quê planear? Para quê fazer sacrifícios? Se nem sequer sabemos se o amanhã vai chegar...

Só nestas duas últimas semanas, houve dois acontecimentos a nível internacional que foram marcantes, não só pela sua índole mas também pelas suas repercussões. O primeiro foi o atentado de 11 de Março em Madrid, com a morte de muitas pessoas inocentes, que encontraram o fim das suas vidas através de um acto covarde, e que, de certo modo, as torna algo ignóbeis.
O segundo foi a morte do líder espiritual do Hamas, na madrugada passada. Considerado pelos israelitas como o principal causador dos atentados mártires em Israel e seus vizinhos, foi morto infamemente, atingido por 3 mísseis (deveia ser realmente grande, o senhor) causando também a morte de alguns inocentes que se encontravam nas imediações. A resposta a este acto não se fez esperar e os Palestinianos já ameaçaram "olho por olho".
Tendo em conta os últimos anos, estes factos não aparentam nada de excepcional. Contudo, existe um senão - ESTAMOS NO SÉCULO XXI.
Já lá vão os tempos em que o ser humano se preocupava com 3 coisas: alimentar-se, reproduzir-se e sobreviver até ao dia seguinte. Supostamente, nos dias que correm, as sociedades deveriam ser organizadas, a globalização ser um meio de desenvolvimento e o Homo sapiens sapiens viver em harmonia, tendo cada comunidade a sua especificidade (cultura, crenças, valores, estilos de vida) mas respeitando-se mutuamente.
Que pobre e inocente criança eu saí!!! Afinal está tudo na mesma, desde a pré-história, só mudou a fachada. Afinal, ainda tenho que preocupar-me com o amanhã. Afinal tenho que pensar duas vezes se devo apanhar o comboio, não vá um Português de origem árabe, que vive cá desde que nasceu e que há umas semanas recebeu o sinal que já lhe havia sido comunicado enquanto ainda era um embrião, ter colocado um engenho explosivo nos carris da Fertagus e progamado para explodir na hora de ponta, enquanto atravessa a ponte. Sim, porque nós também apoiámos a invasão do Iraque!

Pessimista perspectiva, esta que apresentei. Talvez até descabida e sem fundamento. Mas se virmos bem, todo este enredo a que chamamos actualidade não passa de uma roleta russa, em que nunca sabemos quando é que a bala nos vai sair. E o pior, é que muitas vezes nem a sentimos aproximar e, num ápice, tudo à volta se desmorona e, mais uma vez, nos perguntamos: Porquê?

domingo, março 21, 2004

Poesia

Dia 21 de Março, Dia Mundial da Poesia! Não podia deixar passar este dia ao lado do blog. Um dia em que comemoramos uma forma diferente de ver o Mundo... Desde que inaugurámos o blog algumas foram as oportunidades em que vos convidamos a ler poemas, hoje vou também fazê-lo, com uma diferença, das outras vezes apresentei-vos poetas, hoje apresento-vos um texto meu. Uma ousadia talvez, pois é um texto simples, mas que espero que seja do vosso agrado.

20 anos já lá vão!!!

20 anos já lá vão,
com tanto vivido e tanto para viver!
Sou um céu sem fim para aprender,
sinto-me um sol a brilhar por acreditar,
com nuvens sempre a passar!

Um Mundo tão imenso,
com questões tão banais,
com guerras tão triviais!

Um Homem tão irracional,
para as questões racionais.
Um Homem tão racional,
para as questões sentimentais!
Porquê as nuvens deste Mundo, o negro que teima em espreitar os céus?

Quero acordar, com dias de sol e dizer que sim,
com dias sem sol e dizer que sim!
Quero acordar e dizer sempre que sim...

Uma vastidão, uma diversidade, uma utopia,
para destruirmos com um pontapé na esquina,
debaixo do candeeiro centenário,
para dizermos adeus num precipício milenar.
Com que direito? Mas que raio de Mundo é este?

Não o quero assim e recuso-me a aceitá-lo assim!
Quero poder gritar que não debaixo da luz,
dar a mão no descampado,
só assim consigo admirar e viver esta grandeza de globo azul celeste...

sábado, março 20, 2004

A responsabilidade

Os últimos anos têm sido ricos em novas experiências. Digamos que a Faculdade está a superar as minhas expectativas, as vivências, a AE, e arrisco me a dizer a própria faculdade como formadora. No meio deste poço mágico de experiências que foram os últimos anos, há claramente pós mais mágicos e algumas pernas de rã. Não vou numerar todas as realidades ou tudo o que descobri, hoje vou apenas reflectir sobre algo que me intriga e ao mesmo tempo me apaixona. A noção de responsabilidade, um pó mágico!

Talvez devido à minha educação, tenho uma relação especial com ela, a responsabilidade. Mais do que exigir aos outros não me perdoo a mim próprio, como que sendo o primeiro a exigir e a punir quando ela não está presente, ou simplesmente quando a ingenuidade, ou inexperiência, brincam connosco e nos fazem percorrer caminhos que não queríamos. Digamos que quando algo que tento construir sobre alicerces de ferro, aparece-me sobre um baralho de cartas, cria em mim um sentimento de revolta imediato. Após o choque inicial, procuro ser racional e reagir de imediato, remediar se possível ou simplesmente procurar a fórmula que me silencia de novo, por ter sido capaz de restabelecer os alicerces. Hoje tive um daqueles dias, em que os alicerces se quebraram e ficou o peso em cima de mim e de mais umas quantas vigas humanas. O dia acabou o peso continua cá, no entanto descobri algo que apesar de não resolver a questão, me deixou satisfeito, há mais gente assim. Neste mundo estranho ainda há quem sinta a palavra, quem se entregue por outros, quem acredite em causas. Se calhar não entendem a razão deste desabafo. Se calhar eu também não! Mas quis fazê-lo!

segunda-feira, março 15, 2004

Crónica Futebolística

Porque o desporto também é importante...aqui vai uma passagem do jornal “Jogador da bola”!


Pés de chumbo voltam a brilhar!

Após uma pré-época desgastante, de noites perdidas, de pestanas queimadas, de livros riscados, reiniciou-se a nova época do FUTSAL. No passado dia 13 de Março os Pés de Chumbo, uma equipa que começa a criar o seu historial nestas andanças, alcançou uma brilhante vitória deixando no ar o perfume de quem sabe “jogar á bola” e atenção que não digo jogar futebol. Essa área podemos não dominar, mas o resto é connosco, “o jogar á bola”. Uma equipa que soube dar perfume ao jogo, discutindo-o até ao fim, dando a oportunidade ao adversário de marcar, sempre que estes se dirigiam á baliza... Num dia soleiro, agradável para a práctica de “a bola” os Pés de chumbo alcançaram uma vitória de 7-5.

Penso que os jogadores da equipa merecem uma análise atenta:

Murtala: uma mancha negra em campo, de camisola jamaicana. Como já era noite, quando queríamos saber dele pedíamos lhe que risse. Deixou tudo em campo, sendo o marcador da equipa. Falhou, marcou e ainda frangou, digamos que um jogador completo bem á moda desta team maravilha.

Bugalho: muitos apelidavam-no de coxo antes de entrar em campo. Cedo quis mostrar que se enganavam e no seu jeito lento, lá se arrastou pelo campo até marcar um golo. Seguidamente dirigiu-se ao banco, afirmando já ter feito o seu papel no campeonato, teve a tentação de puxar do cigarro, mas realmente guardou-se, pois a equipa precisava dele...ou não!

Judeu: um autêntico Maradona em campo, bastava olhar para as chuteiras brilhantes, polidas, limpinhas e víamos que tínhamos jogador. Aquele tipo de jogador que só de andar mete medo. Parava a bola á sua frente, dançava ao som de uma música brasileira e depois fazia um passe daqueles, daqueles estão a ver...

Maluca: mal entrou mostrou que ia dar que falar. Estatura de gazela da equipa, deixou essa tarefa para o Farinha preferindo correr sempre a atirar as pernas para fora, criando um estilo muito próprio. Ora corria ora se arrastava, sempre com a baliza como objectivo, quando o cansaço apertava procurava posicionar-se na frente de ataque á espera que a bola lá chegasse, aquilo que na gíria chamamos “na mama”. O público vibra ao ver o homem correr...

Pilão: podíamos dizer que faz lembrar o Fernando Aguiar, mas não, prefiro dizer que o Fernando Aguiar o deve ter como jogador a imitar. Pilau mostrou os seus dotes futebolísticos, que todos sabiam que existiam, mas sempre se recusara a desenvolver.

Farinha: era o motor da equipa, o tipico Petit que está em todo o lado, que corria sem bola e com bola, sempre de um lado para o outro, imparável.

Mac: fala mais do que joga, necessitando com certeza de uns óculos para ir á baliza. Aquele golo fica para a história - o que sofreu. Um defesa á moda antiga, que não desiste de um lance e que tem um lema que é comum a muitos outros jogadores da equipa - ou passa o homem, ou a bola, os dois fica difícil, e para cumprir a tradição lá cometeu a falta da ordem.

Toto: jogou em todo o lado, refilava por todo o lado, sempre com a camisola da selecção, como que lembrando Scolari para convocá-lo, ele diz que deixa de fumar se assim for. A equipa está com ele e há mesmo quem diga que se ele não for convocado recusa-se a jogar na Selecção Nacional. Resumindo ou ele é convocado ou então Scolari vai ter problemas de balneário.

Esta equipa promete, afinal, conta pelo número de jogos o número de vitórias e não podemos esquecer que ainda há muito jogador que não foi convocado, assim de repente temos o Zé, o TS que quando entrar vai de certeza marcar a diferença e muitos outros que mais para a frente farei referência.

quarta-feira, março 10, 2004

2003 - O ano blog

O ano de 2003 foi sem dúvida, entre muitas outras coisas, o ano dos blogs, e 2004 será, penso, um ano ainda de maior crescimento. Não bastou cada um de nós sentir a necessidade de ter um número de telemóvel próprio, uma caixa de e-mail ou várias, como agora cada uma de nós quer ter o seu espaço internético de livre expressão – o seu blog.

O blog, como as rádios pirata dos anos 80, nasce assim como mais um símbolo da democratização da opinião. Por quão estúpida ou inteligente que ela seja, cada um liberta o pseudo-Marcelo Rebelo de Sousa que tem dentro de si e diz que também pode sugerir um livro, pronunciar-se sobre um acontecimento ou expressar as suas motivações. E numa auto-estrada de abstinência participativa em que estamos a circular nada é mais inevitável do que os louvar e os respeitar.

Em média são criados 50 blogs portugueses por dia que se juntam aos mais de 11 milhões em todo o mundo, apenas 34% dos blogs resistem à inspiração e motivação inicial, mas os que resistem permitirão criar um fórum mundial de opiniões.

sexta-feira, março 05, 2004

Valeu a pena?

Há uns dias, estava a ler um post do Tiago acerca de actividades extra-curriculares, e...

...este fim-de-semana houve mais um ENDA. Sim, houve MAIS UM, porque já não há nada de apreço que consiga dizer sobre uma instituição que foi tão importante e decisiva na história da vida académica e da sociedade portuguesa.
A mim, que sou dirigente associativo há 4 anos, cada vez me faz menos sentido o que ando a fazer, cada vez me faz menos sentido aquilo que tento transmitir a cada um dos meus colegas. Não porque tenha perdido o sentido do Norte, ou deixado de acreditar nos valores e razões que ditam (ou melhor, ditaram…) a nossa existência. Mas antes, porque sinto que falo para ninguém ouvir, faço por mim em vez de por nós, reivindico por uma causa desapoiada.
Entristece-me bastante marcar uma RGA e aparecerem 10% dos estudantes da Escola. Pergunto-me porque será? Por que razão não querem os estudantes saber se as propinas vão aumentar? Por que razão não quererão os estudantes saber se os docentes são correctamente avaliados ou avaliados de todo, ou se a reprografia vai fechar, ou se vão ter as bolsas a tempo? Pergunto-me, será culpa minha? Não consigo cativar os estudantes? Ou será que os estudantes já não acreditam na instituição que represento? Por que será que num ENDA, em que no painel em se discute a qualidade de vida dos estudantes do Ensino Superior e a Acção Social Escolar estão meia dúzia de Associações representadas e o painel é a despachar, e no painel das eleições para os Órgãos Nacionais estão mais de 100 AAEE, para voltarem a desaparecer no painel seguinte? Afinal, o que querem os dirigentes associativos? Querem realmente saber dos estudantes e dos seus problemas, ou estão mais interessados em ter tachos e criar cada vez mais "jobs for the boys”? Entristece-me ver os tubarões do associativismo estudantil minarem completamente aquilo que ainda resta de bom nesta “vida académica paralela” que tanto gosto me deu trilhar.
Olho para trás e vejo quatro anos de sacrifício, quatro anos em que, apesar do curso extremamente exigente e intensivo que frequento, consegui manter de pé o sonho de participar em algo maior que qualquer um de nós, muitas vezes chegando ao ponto de preterir do curso em prol do associativismo. E no fim, pergunto-me, será que valeu a pena? Eu quero acreditar que sim…

Ora VIva!

Quando soube que as Conversas de Canto haviam renascido, uma saudade que estava latente ouviu o chamamento e fez-se sentir cá dentro. Foi com muita satisfação e alguma nostalgia que vi sugir este blog. Tenho-o como um meio imprescindível de manter aquelas conversas a que nos habituámos no Colégio e que tanta falta fazem...
Espero conseguir contribuir com a minha visão das coisas, partilhar reflexões, quer importantes quer triviais, e não deixar que este rio fantástico seque.
Aquele abraço!

quarta-feira, março 03, 2004

1982 - Aborto

Em 1982, quando encontrava-se no poder a coligação PPD/CDS, o aborto discutia-se mais uma vez, como outras tantas outras vezes até aos dias de hoje, sem grandes avanços para aí além.
Encontrando-se inevitávelmente dividido o parlamento nesta matéria de maneira similar à actual, e chumbando o projecto de uma liberalização da matéria, o parlamentar do CDS, João Morgado, católico professo, profere na sua declaração de voto a dogmática afirmação de ser o acto sexual só justificável tendo por objectivo a procriação.
Natália Correia, deputada pelo PSD mas pró-aborto, não se contém com a afirmação e escreve e distribui pelos colegas do hemíciclo o poema que abaixo se transcreve, dedicado pela autora ao seu colega João Morgado.
Para saber...



Dedicado ao deputado João Morgado

Já que o coito - diz o Morgado
Tem como fim cristalino
Preciso e imaculado
Fazer menina e menino,
E cada vez que o varão
Sexual petisco manduca
Temos na procriação
Prova que houve truca-truca.

Sendo pai de um só rebento
Lógica é a conclusão
De que o viril instrumento
Só usou - parca ração! –
Uma vez. E se a função
Faz o órgão - diz o ditado –
Consumada essa operação
Ficou capado o Morgado.

(Natália Correia)