Se o fim do ano está carregado de balanços e retrospectivas, d'"os melhores" e d'"os piores" dos tempos que já passaram e estão feitos, o princípio do seguinte, esse, está repleto de verdes esperanças, intenções futuras ou medidas que na sua grande parte não correrão como esperamos e inevitavelmente serão miseravelmente cumpridas. Nenhuma das intenções de Janeiro vão ser as mesmas de Abril ou de Setembro e poucas chegarão à memória de Dezembro. Esquecemo-nos que as intenções não se fazem para futuro mas para o presente não do "eu quero", mas do "eu consigo", "eu faço". Esquecemo-nos que "querer" implica sempre "fazer" e que o "sucesso" só vem antes de "trabalho" naquele livro a que chamamos dicionário.
Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo de novo.
RECEITA DE ANO NOVO, Carlos Drummond de Andrade
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.