sexta-feira, julho 23, 2004

A curiosidade...

Parto este fim de semana de viagem para o lado de lá do Atlântico... A minha colaboração no blog que ultimamente tinha aumentado vai cessar assim um pouco, tendo eu  secreta esperança de conseguir talvez escrever um post de lá, provavelmente sobre o choque de culturas!

Quanto à minha maior curiosidade, nos dias que se aproximam, vai ser com toda a certeza: saber qual a próxima peripécia que o nosso governo vai preparar. Usem da imaginação, penso que tudo é possível!

Vemo-nos por aí!

AS

quarta-feira, julho 14, 2004

Deus

"É uma típica tarde de sexta-feira e estás dirigindo em direcção à tua casa. Sintonizas o rádio.

O noticiário está a falar de coisas de pouca importância.

Numa cidade distante morreram três pessoas com uma gripe até então totalmente desconhecida.

Não prestas muita atenção ao tal acontecimento.

Na segunda-feira, quando acordas, escutas que já não são três, mas 30 mil as pessoas mortas pela tal gripe nas colinas remotas da Índia.

Um grupo do Controle de Doenças dos EUA foi investigar o caso.

Na terça-feira, já a noticia é mais importante, ocupando a primeira página de todos os jornais, porque já não é só na Índia, as também no Paquistão, Irão e Afeganistão.

Enfim, a notícia espalha-se pelo mundo. Chamam a doença de "La Influenza Misteriosa" e todos se perguntam: Que faremos para controlá-la?

Então, uma notícia surpreende a todos: Europa fecha as suas fronteiras. França não recebe mais voos da Índia nem de outros países onde se tenha suspeitas de existência de casos da tal doença.

Devido ao encerramento das fronteiras, estás ligado em todos os meios de comunicação, para te manteres informado da situação e de repente ouves que uma mulher declarou que, num dos hospitais da França, um homem está a morrer pela tal "Influenza Misteriosa".

Começa o pânico na Europa.

As informações dizem que, quando contrais o vírus, é questão de uma semana e nem percebes.

Em seguida tens quatro dias de sintomas horríveis e morres.
A Inglaterra também fecha as suas fronteiras, mas já é tarde.

No dia seguinte o presidente dos EUA fecha também as fronteiras para Europa e Ásia, para evitar a entrada do vírus no país, até que encontrem a cura.

No dia seguinte, as pessoas começam a reunir-se nas igrejas em oração pela descoberta da cura, quando de repente entra alguém na igreja aos gritos:

- Liguem o rádio! Liguem o rádio! Duas mulheres morreram em Nova York!!!

Em questão de horas, parece que a coisa invadiu o mundo inteiro.

Os cientistas continuam a trabalhar na descoberta de um antídoto, mas nada funciona.
De repente, vem a notícia esperada: Conseguiram decifrar o código de ADN do vírus.

É possível fabricar o antídoto!

É preciso, para isso, conseguir sangue de alguém que não tenha sido infectado pelo vírus.

Corre por todo o mundo a notícia de que as pessoas devem ir aos hospitais fazer a análise de seu sangue e doá-lo para o fabrico do antídoto.

Tu vais voluntariamente com toda tua família, e alguns vizinhos, perguntando-te:
- O que acontecerá?. Será este o final do mundo?

De repente o médico sai a gritar um nome que leu no seu caderno.
O menor dos teus filhos está do teu lado, agarra-se ao teu casaco e diz:
- Pai? Esse é o meu nome!

E antes que possas fazer algo, levam-te o filho e gritas:
- Esperem!

E eles respondem:
- Está tudo bem! O sangue dele está limpo, é sangue puro. Achamos que ele tem o sangue de que precisamos para o antídoto.

Depois de cinco longos minutos, saem os médicos chorando e rindo ao mesmo tempo.
É a primeira vez que vês alguém a rir há uma semana.
O médico mais velho aproxima-se de ti e diz:
- Obrigado senhor! O sangue de seu filho é perfeito, está limpo e puro. O antídoto finalmente poderá ser fabricado!

A noticia espalha-se por todos os lados.

As pessoas estão orando e rindo de felicidade.

Nisto, o médico aproxima-se de ti e da tua esposa e diz:
- Podemos falar um momento? Não sabíamos que o doador seria uma criança e precisamos que o senhor assine uma autorização para usarmos o sangue de seu filho.

Quando estás a ler, percebes que não colocaram a quantidade de sangue que
vão usar e perguntas:
- Qual a quantidade de sangue que vão usar?

O sorriso do médico desaparece e ele responde:
- Não pensávamos que fosse uma criança. Não estávamos preparados, precisamos de todo o sangue do seu filho.

Não podes acreditar no que ouves e...tratas de contestar:
- Mas... mas...

O médico insiste:
- O Senhor não compreende? Estamos a falar da cura para o mundo inteiro!!
Por favor, assine! Nós precisamos de todo o sangue.

Tu, então, perguntas:
- Mas não podem fazer-lhe uma transfusão?

E vem a resposta:
- Se tivéssemos sangue puro, poderíamos. Assine! Por favor, assine!

Em silêncio, e sem sentir a caneta na mão, tu assinas.

Perguntam-te:
- Quer ver o seu filho?

Caminhas na direcção da sala de emergência onde se encontra a criança
sentada na cama dizendo:
- Pai?! Mãe?! O que está acontecer?

- Filho, a tua mãe e eu amamos-te muito e jamais permitiríamos que te acontecesse algo que não fosse necessário, entendes?

O médico regressa e diz-te:
- Sinto muito senhor, precisamos de começar. Gente do mundo inteiro está a morrer.

Podes sair? Podes virar as costas ao teu filho e deixá-lo ali?

O teu filho diz:
- Pai?! Mãe?! Por que é que me estão a abandonar?

E, na semana seguinte, quando fazem uma cerimónia para honrar o teu filho, algumas pessoas ficam em casa a dormir, outras não vêm, porque preferem fazer um passeio ou assistir a um jogo de futebol na TV e outras vêm com um sorriso falso. Tens vontade de parar e gritar:
- O MEU FILHO MORREU POR VOCÊS!!! NÃO SE IMPORTAM COM ISSO?


Talvez seja isso o que DEUS quer dizer:
- O MEU FILHO MORREU POR VOCÊS!!! NÃO SABEM O QUANTO VOS AMO!!!

É curioso, o simples que é para as pessoas dizer mal de Deus e dizer que não entendem como o mundo vai de mal a pior.
É curioso como acreditamos em tudo aquilo que lemos nos jornais, mas questionamos as palavras de Deus.

É curioso como todos querem ir para o Céu, mas nada fazem para merecê-lo.

É curioso como as pessoas dizem:
- "Eu creio em Deus!" - mas, com suas acções, mostram totalmente o contrário.

É curioso como consegues enviar centenas de piadas através de um correio electrónico (e-mail), mas quando recebes uma mensagem a respeito de Deus, pensas duas vezes antes de compartilhá-las com outros.

É curioso como a luxúria, crua, vulgar e obscena passa livremente através do espaço, mas a discussão pública de DEUS, é suprimida nas escolas e locais de trabalho.

É CURIOSO, NÃO É?

Mais curioso ainda é ver como se pode estar tão crente em DEUS ao domingo, e ser um cristão invisível no resto da semana.

É curioso que quando terminares de ler esta mensagem, não a enviarás a muitos da tua lista de amigos, porque não estás
certo daquilo que eles crêem e do que eles vão pensar..."

terça-feira, julho 13, 2004

Sophia

Imortalizou-se em vida...



Atravessei o jardim solitário e sem lua,
Correndo ao vento pelos caminhos fora,
Para tentar como outrora
Unir a minha alma à tua,
Ó grande noite solitária e sonhadora.

Entre os canteiros cercados de buxo,
Sorri à sombra tremendo de medo.
De joelhos na terra abri o repuxo,
E os meus gestos foram gestos de bruxedo.
Foram os gestos dessa encantação,
Que devia acordar do seu inquieto sono
A terra negra dos canteiros
E os meus sonhos sepultados
Vivos e inteiros.

Mas sob o peso dos narcisos floridos
Calou-se a terra,
E sob o peso dos frutos ressequidos
Do presente,
Calaram-se os meus sonhos perdidos.

Entre os canteiros cercados de buxo,
Enquanto subia e caía a água do repuxo,
Murmurei as palavras em que outrora
Para mim sempre existia
O gesto dum impulso.

Palavras que eu despi da sua literatura,
Para lhes dar a sua forma primitiva e pura,
De fórmulas de magia.

Docemente a sonhar entre a folhagem
A noite solitária e pura
Continuou distante e inatingível
Sem me deixar penetrar no seu segredo.
E eu senti quebrar-se, cair desfeita,
A minha ânsia carregada de impossível,
Contra a sua harmonia perfeita.

Tomei nas minhas mãos a sombra escura
E embalei o silêncio nos meus ombros.
Tudo em minha volta estava vivo
Mas nada pôde acordar dos seus escombros
O meu grande êxtase perdido.

Só o vento passou pesado e quente
E à sua volta todo o jardim cantou
E a água do tanque tremendo
Se maravilhou
Em círculos, longamente.

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, julho 06, 2004

Animais! Quem?

O Animal e o Homem!

As vivências fazem-nos evoluir, ou simplesmente mudam a nossa maneira de encarar o mundo e os seus pequenos nadas! Comecei com o Animal e o Homem! Letras maiúsculas leia-se!
Por volta de 12 de Novembro de 2002 (um pouco mais tarde talvez) tive a felicidade de receber juntamente com a minha família um cachorrito. Um Serra da Estrela puro, uma autêntica bola de pelo na altura! A junção de um sonho de infância com um ídolo de infância fez com que aquela autêntica bola de pelo se chamasse Figo. Coincidência das coincidências era viciado em jogar à bola, ou não fosse ele um cão, mas com a particularidade de só andar de voltas das bolas quando não era ele que a tinha! O nome vinha assim do meu ídolo de infância, da bola de que tanto gostava e de um pormenor engraçado: adorava figos, tinham era de ser abertos!
Lá em casa ganhámos lhe afeição! Sempre prezámos por tratá-lo da melhor forma. Espaço para correr foi algo que sempre abundou. O meu pai teimava em arranjar uma casota, em abrir lhe as portas das boxes, para que tivesse um sítio onde se abrigar da chuva se assim quisesse. Ele sempre teimou em andar à chuva! Tinha os seus brinquedos, dados nos anos, ou no Natal, sempre pela minha irmã, que se dava ao trabalho de embrulhar os mesmos. Tinha direito as umas valentes sopas, feitas de propósito pela minha mãe para ele, de resto era só ração do melhor. Muitas horas passámos a penteá-lo, a escová-lo, era uma bola que por mais que quiséssemos tinha sempre pelo. Adorava banhos quentes de mangueira, e se ele tomava banho, todos tinham de tomar banho. Banho era sinónimo de eu ir de chinelos e calções e sair de lá pingado...
Porque tudo isto? Se calhar perguntam com razão! A resposta é simples! Não se limitava a ser um cão. Era a companhia do meu pai durante a semana quando estava na terra. O meu companheiro da bola. Aquele que mantinha a pata no pé da minha mãe quando a minha mãe estava sentada, como que dizendo está guardada. O aconchego da minha irmã, que apesar da sua brutidão de cão(pesava 50/60kg), também sabia deixar que ela o agarrasse e tal como era capaz de saltar para brincar com ela, era capaz de ficar ali parado só a receber mimos. O guarda na nossa casa, da dos vizinhos, da ourivesaria, acho que posso dizer da rua! Sim da rua! Quando o levávamos a passear ao café, ao fundo da rua, os Velhos do Restelo tinham sempre as mesmas afirmações: “Cuidado com o bicho”, “Mete respeito”, “Aquilo puxava uma carroça”. As crianças por seu lado ficavam boquiabertas, aproximavam-se e perguntavam posso dar uma festa? Não tenho registos de uma que se tenha queixado! Se aleijou alguém, não foi criança e foi pela vontade do Figo em brincar...

Passou a fazer parte da família! Fazia de tudo: lambia os pratos do bife; entrava de fugido em casa, ia ao meu quarto e enrolava-se na cama até acordar-me; fazia autênticos raides pela casa a fugir do jornal que o meu pai tinha na mão por ter sujado o sofá; ladrava ao mínimo estranho que passava nas redondezas, ao mínimo bicho que rondava a casa, fosse ele um rato ou uma cobra; perdia a imponência num canto escondido quando é a altura das festas com medo dos foguetes; adorava massa de merendeiras... Acho que passava aqui o resto da noite a contar histórias! Surgiu-me uma última! Era um mimado do piorio, chegava ao cúmulo de com o focinho balançar a minha mão, até que ela saísse do bolso e lhe caísse em cima da cabeça e começasse a termideira que ele tanto gostava.
Já se perguntam, espero, porque terei escrito tal descrição, porque falo hoje pela primeira vez que tenho um cão? A resposta é simples, porque foi hoje que ele morreu com 1 anos e oito meses...
Espero que pela vossa cabeça passem agora as perguntas: como? porquê?
Porque alguém o envenenou! Porque alguém o envenenou! Porque simplesmente nunca conseguiram destrui-lo por fora! Aquele pelo e aquela imponência eram intransponíveis! Tiveram de corroe-lo por dentro! Tiveram de destrui-lo por dentro, com a cobardia de ao longe lhe atirarem algo. Por muitos dias se aguentou, levantando-se sempre que os estranhos por ali andaram, e deitando-se de seguida...esteve lá até ao fim e a pose sempre presente! Porque no fim de tudo isto não é o Animal e o Homem, como erradamente anunciei, porque afinal, Animais, somos todos!
O próximo Figo vem aí!
AS

sexta-feira, julho 02, 2004

A Portuguesa e a Bandeira

Muito se tem discutido como é ou não é!
A Portuguesa donde se retirou o Hino Nacional e uma Bandeira Nacional Portuguesa

A bandeira é rectangular (2:3), tal como as suas antecessoras, e bipartida de verde e vermelho, ocupando o verde dois quintos da largura e o vermelho os restantes três. Centrada na divisão, o brasão da República, constituído pelo escudo (de novo em formato "português") sobreposto a uma esfera armilar, cujo diâmetro é igual a metade da altura da bandeira.



Heróis do mar, nobre povo,
Nação valente, imortal,
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal!
Entre as brumas da memória,
Ó Pátria sente-se a voz
Dos teus egrégios avós,
Que há-de guiar-te à vitória!

Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões marchar, marchar!

Desfralda a invicta Bandeira,
À luz viva do teu céu!
Brade a Europa à terra inteira:
Portugal não pereceu
Beija o solo teu jucundo
O Oceano, a rugir d'amor,
E teu braço vencedor
Deu mundos novos ao Mundo!

Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões marchar, marchar!

Saudai o Sol que desponta
Sobre um ridente porvir;
Seja o eco de uma afronta
O sinal do ressurgir.
Raios dessa aurora forte
São como beijos de mãe,
Que nos guardam, nos sustêm,
Contra as injúrias da sorte.

Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões marchar, marchar!

Música: Alfredo Keil
Letra: Henrique Lopes de Mendonça

terça-feira, junho 29, 2004

Votámos em quem?!


A semana é propícia a inúmeras reflexões políticas tal não fosse este um momento inédito na história da nossa democracia portuguesa. Ela irá abrir-nos os olhos para algumas das falácias do nosso regime democrático.
Primeiro há que distinguir que uma coisa é o que queremos dos acontecimentos e outra é o que os acontecimentos realmente são e geram. Ao contrário do que muitos querem, e bem na minha opinião, na nossa democracia, em boa verdade, na maioria dos cargos ditos democráticos, não existe a escolha directa de ninguém.
Na escolha da qualidade, competência ou identidade dos nossos representantes o normal do cidadão não é tido nem achado não estando essa selecção dependente da sua boa vontade ou do seu bom critério mas da vontade ou dos jogos de poder internos dentro das forças partidárias que se candidatam. Os portugueses nunca escolherão directamente o Dr. Santana Lopes da mesma forma como nunca escolheram o Dr. Durão Barroso para ser nosso 1.º Ministro.
Está certo que existem tradições políticas que nos fazem confiar que quando vamos à urna votar é nele ou naquele que votamos, mas o facto é que sempre votámos em siglas para nos representarem e não cidadãos como nós.
Os partidos não só reflectem uma ideologia (ou não) mas também reflectem a nossa preguiça de saber quem é o mais certo para determinado lugar. Eles tratam disso entre eles, aliás, eles negoceiam isso entre eles.
Da mesma forma não serão os cidadãos que escolherão amanhã se o próximo 1.º Ministro será o Ferro, o Soares, o Sócrates, o Vitorino, ou nenhum destes que estes já podem ser maus. Não são os cidadãos que escolherão se um militante de fim de lista é mais competente que um cabeça de lista.
E agora apercebemo-nos que afinal o 1.º Ministro pode ser outro, que nunca escolhemos os nossos ministros, que nunca escolhemos os nossos deputados, que nunca conhecemos o programa deles. Apenas confiámos em duas ou três letras e nas ideias pouco transparentes que uns têm ou não têm. Uma confiança que atinge os seus limites quanto maior é a abstenção.
Além disso as eleições são legislativas não executivas. A Constituição sugere que o Presidente da República convide o presidente do partido vencedor a formar governo. A tradição faz que ele seja, dessa forma, 1º Ministro, mas ele poderá recusar esse cargo e apresentar com o partido outro candidato ao cargo que os portugueses nunca viram pintado. Uma possibilidade que não está claro nem nos eleitores nem em militantes. O costume protege-nos contudo.
Assim quem ganhou foi o PSD não o Dr. Durão Barroso. É o PSD que no parlamento suporta um governo. Aliás o único cargo em que existe uma eleição pessoal é o de Presidente da República, é só para esse que escolhemos a identidade do indivíduo.
E embora fique satisfeito que existam eleições porque não acredito no caminho que o país toma, acho que nesta situação não é o partido que venceu as eleições que tem de ser responsabilizado são os portugueses que votaram num projecto de quatro anos e agora arrependeram-se.
Para terminar, falacioso é também o argumento que "o partido perdeu nas eleições europeias" e como tal perdeu a legitimidade democrática, falacioso porque o programa do governo até pode ser contrário ao programa eleitoral dos eurodeputados (claro que nunca é!), falacioso porque sempre que os resultados de outra eleição fossem abaixos dos obtidos nas legislativas, teríamos sempre uma legitimidade perdida e toca a fazer eleições. Era a impossibilidade de tomar medidas impopulares, era o caos.
É o nosso regime que propicia a partidarização. E embora isso, são capazes de serem convocadas eleições, não deviam, mas para nós ainda bem!

Bestial a Besta! Quem diria?

Pois é meus senhores, começam a evidenciar-se as parecenças entre o futebol e a política.
É comum ouvirmos a expressão "de bestial a besta". Quantas vezes no mundo do desporto, sobretudo no futebol, um jogador dança de um lado para o outro sem nada ter feito. Na política, mais propriamente no interior dos partidos, os militantes do partido maioritário elegeram agora uma nova dançarina. Após, no último congresso do partido do governo, a mulher mão de ferro das finanças portuguesas ter sido unanimemente saudada pelos seus colegas militantes, hoje, a senhora trocou de mão e teve de rodopiar para o outro extremo. Parece que o João Jardim e o Luís Filipe Menezes deram o mote à dança...

Vamos ver onde estas guerras pelo assento de São Bento vão parar! Para já, a verdade é que oficialmente não há um candidato assumido. Mau ou bom presságio?
As gaivotas andam em terra, indicia tempestade no mar e não há comandante para a nau...
Maus ventos se aproximam!

AS

sexta-feira, junho 25, 2004

Do futebol à Europa

Portugal mergulhou no "Mundo do Futebol" desde há uns dias e desde ai tem-se vivido uma euforia desmedida. A conquista das meias-finais colocou os portugueses na rua a festejar uma vitória, mas todos sabem que não se trata apenas de mais uma. O que tem de especial? Sinceramente não sei explicar! Sei que não foi por apenas termos ganho um jogo que todos descemos à rua na passada noite...

Apesar de esta loucura colectiva é preciso não esquecer que tudo isto é efemero, que dentro de dias o Euro2004 acaba. Não podemos esquecer tudo isso! É preciso saber viver este campeonato e saber continuar a viver a vida de todos os dias, preparando o futuro. Desçamos à terra então:

1. O Primeiro Ministro vai mesmo candidatar-se à Presidência da Comissão Europeia?
2. Esta não é uma questão do PSD, do Governo, ou do Durão, mas sim uma questão Nacional. Uma questão que sugere outras tantas.
3. Quem o sucederá? Santana Lopes por dinastia? Sucessão dinástica em Democracia, nunca ouvi falar?
4. Uma pergunta que oiço poucos fazerem, mas que enquanto Europeu me surgiu. Será Durão Barroso um bom Presidente para a Comissão Europeia? Para Portugal seria bom haver um Presidente da União Europeia Português, poucas dúvidas tenho, mas e para a Europa? Não deveríamos discutir isso...
5. Quando o país atravessa uma crise de confiança, com a economia ainda sem força, com os Portugueses desmoralizados, onde só o futebol os revitaliza, sair a meio de uma guerra que foi iniciada por este governo há dois anos e onde não se vislumbra vencedor, é justo o líder sair, mais, é este o exemplo de um líder?
6. Não sei precisar qual o Primeiro Ministro, mas ainda ontem ouvi na SICnotícias que uma das possibilidades mais apetecidas pelos diferentes países, não aceitava pelo compromisso que tinha para com o seu país. Será isso o exemplo de um líder?
7. Atenção, não digo que um Primeiro Ministro não possa abdicar pela Europa. Esse outro sonho que comunhamos também merece esforço, mas há que saber doseá-lo! E a nossa dose era o Vitorino, que foi recusada.
8. Limitei-me a fazer perguntas para as quais ainda não tenho resposta!
9. No meio disto tudo continuam as greves da Carris sem fim à vista; os Professores a constestarem mais uma vez as colocações (que música para os meus ouvidos); os atentados no Iraque; umas eleições europeias sem uma campanha digna desse nome e onde os Portugueses não souberam preservar um direito seu; um país que teima em querer crescer na mente de alguns mas que precisa que os seus líderes também queiram...
10. Acredito na nossa capacidade de trabalho, na nossa dedicação e empenho. Apenas continuo à espera que haja uma oportunidade para que o demonstremos. Apenas...

AS

domingo, junho 20, 2004

Há muito que não escrevo para o BLOG!
Direi mais, provavelmente todo o trabalho de fazer deste blog algo dinâmico dissipou-se, agora com o desleixo a que sujeitámos o canto... Procurarei sempre que possível voltar, consciente que não há desculpas para o desleixo!

Hoje, 20 de Junho de 2004, a Seleção Nacional joga o seu futuro no Euro 2004. Enquanto português sinto me realizado com este Euro. A organização está a superar as minhas expectativas... Não deixo no entanto que isso me reconforte a alma e espero mais, sobretudo da seleção, espero que deixem tudo naquele campo e que reforcem o meu orgulho neste Euro 2004!

Quanto ao meu orgulho em ser Português, esse está sólido, esse é eterno, esse está no meu sangue...

Amanha, como diriam os Madredeus, "Haja o que houver", a minha bandeira estará à janela!

Abraço

segunda-feira, abril 26, 2004

Velhos Tempos

Enviaram-me este mail e não pude deixar de partilhá-lo convosco. Indubitavelmente dá muito gosto ler palavras como estas. Recordar aqueles tempos, em que vivíamos com a responsabilidade única de passar mais um dia em cheio, com os amigos da rua ou os colegas da escola, a jogar à bola até à exaustão, ou então andar atrás da miúda mais gira lá da escola, à espera de uma beijoca no "bate pé", é o bastante para aliviar o stress de mais um dia trabalhoso. Deliciem-se como eu me deliciei...

"nós que...acabávamos os trabalhos de casa à pressa para ir jogar à bola perto de casa.
nós que...éramos obrigados ao "guarda redes avançado" ou a "quem 'tiver perto defende".
nós que...obrigados a "guarda redes avançado" perguntávamos "e passar de meio campo vale?"..."sim,vale tudo!".
nós que...quando se faziam as equipas se fossemos escolhidos em primeiro sentiamo-nos verdadeiramente incriveis,os mais fortes de todos.
nós que...sendo escolhidos por último estávamos destinados a ir à baliza.
nós que...tínhamos sempre um apelido de um jogador importante para nos sentirmos mais fortes.
nós que...quem chegar primeiro aos 10 vence!
nós que...fingíamos nao ouvir as nossas mães a chamar quando começava a ficar escuro e depois havia sempre alguem que dizia "quem marcar ganha!" mesmo que o resultado tivesse 32-1.
nós que...vivemos o terror das botas caneleiras.
nós que...com uns adidas nos pés sentiamo-nos mais fortes que o PELÉ.
nós que...tinhamos aqueles outros tenis sem marca que alem de nao durar nada faziam ficar com os pes com bolhas...
nós que...sonhavamos com aquelas bolas lindas que viamos na televisao mas contentavamo-nos com o que houvesse.
nós que...percebiamos o sentido das camisolas alternativas quando viamos na Tv a preto e branco jogos como o boavista-moreirense.
nós que...os unicos tenis de marca so os levavamos em dias de festa e nem pensar em dar um chuto em qualquer coisa,senao era castigo certo por parte da mãe.
nós que...não nos podíamos sentar em cima da bola senão ela ficava meloa.
nós que...tínhamos de deixar jogar o dono da bola mesmo que fosse uma nulidade e nem quisesse ir a baliza.
nós que...nao precisávamos de barra nem de imagens virtuais para perceber se tinha sido golo ou nao, "golo ou penalty" punha todos de acordo.
nós que..."falta um posso jogar?"..."epa nao sei,a bola nao e minha..."(no caso do pretendente ser um mau jogador).
nós que..."posso entrar?"..."sim,se encontrares um par,porque assim ficamos com um a menos".
nós que...reconhecíamos os jogadores sem ser preciso ter os nomes nas camisolas.
nós que...o nº1 era o guarda redes,o 2 e 3 os laterais,o 4 era o trinco,o 5 era o defesa central e o 6 o libero,o 7 medio direito,o 8 medio centro,o 9 o avançado,o 11 o outro medio possivelmente do lado esquerdo e o 10 com uma faixa no braço era o organizador e capitao porque era o mais forte de todos.
nós que...para um jogador entrar na seleçao nacional devia fazer no minimo 2/3 temporadas a alto nivel.
nós que...os estrangeiros eram no maximo 2 por equipa e conheciamo-los a todos.
nós que...dormiamos com os autocolantes da panini debaixo da almofada.
nós que...quando abriamos os saquinhos esperavamos de nao encontrar aqueles jogadores suplentes eternos que nunca jogavam.
nós que...viamos jogadores como o caccioli e nelo que pareciam mais velhos que os nossos pais.
nós que...o futebol so viamos ao domingo a tarde e as quartas nas competiçoes europeias,nao todos os dias e a qualquer hora que as televisoes decidem.
nós que...se recordamos do domingo desportivo sem as fantochadas de agora e sem os programas com tres ou quatro "entendidos" tip seara cardoso e santana lopes.
nós que...praticamente nao viamos publicidade durante os jogos.
nós que...nao viamos patrocinios em tudo o que e espaço nas camisolas,calçoes,meias,...
nós que...íamos ter com a melhor amiga da rapariga de que gostávamos e dizíamos "pergunta se ela quer andar comigo" e ela no outro dia respondia "ela disse que ia pensar..." e depois pensava durante uma semana...
nós que...faziamos aqueles bilhetes do "queres andar comigo? sim...não...talvez...
nós que...as balizas eram feitas com os nossos casacos ou com as mochilas.
nós que...estávamos sempre todos a horas nos locais combinados sem ajuda de telemóveis e aldrabices.
nós que...mesmo vivendo um pouco longe uns dos outros,saíamos sempre de casa com a esperança de encontrar os amigos ja na proxima esquina com a bola debaixo do braço para irmos jogar.
nós que...aulas era mentira porque tínhamos de jogar e praticar muito para o torneio da escola onde iríamos impressionar as nossas "amadas". "

segunda-feira, abril 12, 2004

Surrealismo


Este é um ano especial. Surrealista. Comemora-se este ano o centenário do nascimento de um artista genial. Salvador Dali. Deixo-vos um link para a página on-line sobre as actividades que se estão a realizar pelo mundo em homenagem a esse grande mestre e fica também outro site experimental de navegação surrealista no mínimo interessante.

quarta-feira, abril 07, 2004

Para ouvir II



"Porque é de "tempo" que falamos, fica, desde já, a sugestão de uma boa fuga dele ouvindo Time Out, a experiência que o Quarteto de Dave Brubeck fez em 59 pela História do Jazz e que veio a tornar-se numa obra maior do estilo, tornando-se no segundo disco mais vendido de Jazz até aos dias de hoje.

Neste álbum, Brubeck ao piano e Desmond ao saxofone, submetem o Jazz a uma fusão com a designada música erudita, onde se apropriam das suas técnicas de composição e consolidam o que viria a designar-se por third stream - a terceira via estilística do Jazz.

Ao som do tantas vezes ouvido mas nem por isso conhecido Take Five, considerada uma das 100 melhores músicas americanas, ou do envolvente Blue Rondo a La Turk, esboçado durante um passeio em Istambul; partam à descoberta de nova música. Apurem o ouvido à decoberta dos padrões de acordes únicos, das mudanças de ritmo ou do diálogo instrumental, sentido o que muitos afirmam ser o tal swing."


no Jur.nal de Dezembro.

terça-feira, abril 06, 2004

Descontraiam..


Se quiserem um pouco de descontracção e um bom momento musical cliquem aqui!

Gerações

Há uns dias atrás após longa discussão com um grupo de velhotes, velhotes não, desculpem, "jovens-que-já-cá-estão-a-mais-tempo-que-eu" lembrei-me de um email que tinha recebido à uns tempos e que vinha mesmo a calhar para contrapor os argumentos apresentados como pessimistas em relação à actual juventude (a que está cá a menos tempo...). Aqui vai:

..."Falando sobre conflitos de gerações o médico inglês Ronald Gibson começou a conferência citando quatro frases:

1 - "A nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, despreza a autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Os nossos filhos são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem aos pais e são simplesmente maus"

2 - "Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque essa juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível."

3 - "Nosso mundo atingiu seu ponto crítico. Os filhos não ouvem mais seus pais. O fim do mundo não pode estar muito longe."

4 - "Essa juventude está estragada até o fundo do coração. Os jovens são malfeitores e preguiçosos. Eles jamais serão como a juventude de antigamente. A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura."

Após ter lido as quatro citações, ficou muito satisfeito com a aprovação que os espectadores davam às frases. Então, revelou a origem delas:

- a primeira é de Sócrates (470-399 a.C.)
- a segunda é de Hesíodo (720 a.C.)
- a terceira é de um sacerdote do ano 2000 a.C.
- e a quarta estava escrita em um vaso de argila descoberto nas ruínas da Babilónia e tem mais de 4000 anos de existência."...

No fundo o que eu espero é que todos nós façamos parte desse futuro e que construamos um mundo mais justo e uma sociedade melhor. Quando deixar de acreditar nisto, aí sim, ai podem-me chamar velho...

terça-feira, março 30, 2004

Sobre o Dia do Estudante

Não considero que esta carta que o Bruno me deu a conhecer em tempos e que a chegou a publicar no Público seja uma carta apenas para a "Direita" do nosso país, mas fundamentalmente, uma carta para todo um povo deliberadamente adormecido, indiferente, ignorante e inconsciente face aos problemas da sua comunidade.
Uma carta de preocupação e treze parágrafos de reflexão num dia que é pelo estudante…



Carta à Direita do Meu País
Por BRUNO CARAPINHA*

Segunda-feira, 24 de Novembro de 2003

"Cara Direita Portuguesa,

Trato-te por tu, porque nos conhecemos já há muito tempo. Nasci há vinte e cinco anos, num país dos arrabaldes geográficos da Europa que ficou, durante décadas, nos arrabaldes do desenvolvimento económico da 2ª metade do século XX e das conquistas sociais, democráticas e civilizacionais do mundo. Meus avós são gente da província, esforçada e inculta, que migrou para os arrabaldes de Lisboa para livrar a vida da pobreza. E meus pais são os últimos filhos do Estado Novo, viveram nos arrabaldes da capital, do acesso à educação, à cultura, ao conforto e ao dinheiro. Sei que não te impressionas - este é o percurso da ascendência de milhares de jovens da minha idade.

Sou um estudante do Ensino Superior. Atravessei o mandato de seis ministros e três mandatos de dois reitores, vivi a suspensão das propinas, conheci a paixão guterriana e a subsequente desilusão, envolvi-me no associativismo estudantil, nos órgãos de gestão universitários, na vida pública e política e na intervenção social neste país. Já não tenho funções na Direcção da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e estou receoso pelo futuro do Ensino Superior Público (ESP) e do próprio país como não estive antes.

Vejo essa tua pressa em legislar, atropelando prazos de discussão e parceiros sociais, vejo as orientações e a política para o sector e percebo que o constrangimento financeiro das universidades não decorre de nenhuma conjuntura difícil, antes corresponde a um instrumento estratégico para o objectivo da desestruturação do ESP. Vejamos porquê.

O objectivo de democratização do acesso e da frequência do Ensino Superior está constitucionalmente garantido. Ultrapassa, portanto, o âmbito de políticas conjunturais de um Governo - é um objectivo da República. Ora, o recente corte cego das vagas de acesso ao ESP contraria este objectivo. Conjugado este corte das vagas com o aumento das propinas, que agrava as despesas das famílias portuguesas (por sinal, as famílias da União Europeia que mais despesas suportam com a educação dos filhos), e com a aplicação de prescrições que expulsam os estudantes do sistema (sem fazer um estudo sério sobre as reais causas do insucesso escolar), os resultados só podem ser a diminuição dos cidadãos abrangidos pelo ensino público e a manutenção da quota de "mercado" do ensino privado.

Torna-se claro que a tua acção imediata e conjuntural põe em causa um objectivo constitucional. Mas, a médio prazo, anunciam-se situações ainda mais dramáticas, pois a previsão de crescimento zero do orçamento para o Ensino Superior até 2006 só pode significar mais cortes orçamentais, mais cortes nas vagas, mais aumentos de propinas e expulsão de estudantes devido às prescrições, asfixiando e descapitalizando o ESP, privando o povo português do acesso a uma formação superior democratizada e de qualidade.

Por outro lado, a Lei de Financiamento visa claramente abrir as portas à privatização do ESP. Abriste esta guerra há mais de dez anos, depois de orientações internacionais apontarem para a transformação do Ensino Superior num mercado, e pareces querer terminá-la. A aplicação bem sucedida das propinas do governo Guterres abriu a porta para este capítulo da mesma guerra. Mas, com a indexação das propinas à qualidade dos cursos, a noção de propina - taxa de frequência do ESP, supostamente responsabilizadora dos estudantes, é substituída por uma noção de propina - parte do preço do curso que o estudante paga para o "comprar", sendo que o Estado suporta o remanescente do custo global (por enquanto...).

Ao mesmo tempo, fazes um corte orçamental que obriga as instituições a recorrer às propinas para pagar salários de docentes e funcionários (por sinal, funcionários públicos que devia ser o Estado a sustentar) e atiras para as escolas a tarefa de definir as propinas, criando uma guerra entre conselhos directivos e associações estudantis, fomentando a instabilidade na vida das instituições e a desarticulação das relações de solidariedade entre os corpos académicos. E, como se não bastasse os aumentos das propinas serem astronómicos, foram ainda indexados ao valor das propinas de uma lei do Estado Novo de 1941, período em que o ESP estava reservado a uma elite bem nascida! Quase como quem sente saudades do passado...

Dir-me-ás que o ESP continua a ser coisa de privilegiados ou ricos. Respondo-te que, com o fim do numerus clausus global, entra no ESP cada vez mais gente de classes mais baixas e que as propinas têm um impacto decisivo na vida dos estudantes, muitas vezes empurrando-os para fora do sistema de ensino ou para trabalhos a tempo parcial ou total, provocando uma maior demora na conclusão do curso.

Dir-me-ás que para os carenciados existe a Acção Social Escolar e que ninguém será excluído. Respondo-te que as cantinas e as residências cobrem uma ínfima parte das necessidades, que há milhares de estudantes entregues à especulação imobiliária, que outros foram sendo forçados a trabalhar para continuar a estudar e que outros ainda foram desistindo nos últimos anos. Respondo-te que as bolsas são miseráveis e injustas porque se baseiam num sistema fiscal reconhecidamente viciado e desigual para proprietários, profissionais liberais e trabalhadores por conta de outrem.

Dir-me-ás que não há recursos no país para sustentar o ESP. Respondo-te que é assustador o tamanho da economia paralela, que milhares de empresas declaram ano após ano ausência de rendimentos, mas mantém-se em funcionamento, que em Portugal a evasão é acompanhada de benefícios fiscais e de má gestão dos dinheiros públicos. Respondo-te que é urgente realizar uma reforma fiscal neste país, não só para aumentar os recursos postos ao dispor do Estado e para moralizar o ambiente social, como ainda para responsabilizar as empresas pelo sustento da formação qualificada dos portugueses que as beneficia directamente. E respondo-te ainda que, mesmo que os recursos disponíveis fossem só os que temos neste momento, o ESP é suficientemente importante para motivar uma opção política e estratégica de apoio ao seu desenvolvimento e abertura.

Se me dizes que há diplomados a mais, respondo-te que temos das mais baixas taxas de toda a União Europeia. Se me dizes que um curso superior é uma mais valia pessoal que deve ser paga, mostro-te as taxas de diplomados sem emprego. Se me dizes que os outros não têm de pagar os cursos dos estudantes, respondo-te que é um investimento que o Estado (o conjunto organizado de cidadãos) deve fazer em si mesmo (i. e., todos os cidadãos sem exclusões) e que não se trata de um direito individual e sim de um direito colectivo do povo português.

Defender o Ensino Superior Público Português e a democratização do acesso de todos os cidadãos a este nível de formação com um bom nível de qualidade não exige que se seja de esquerda. Basta que se seja inteligente. E minimamente patriota. Tu que andas sempre com a pátria na boca, como quem anda com o credo, deixa-te de contratos milionários de armamento, de funerais dos últimos "heróis" do Império, de manobras à volta da Constituição e da subversão do progresso do último quartel de século. Trata do que é urgente e estratégico! A aposta séria na inteligência, criatividade e formação dos portugueses de todas as classes sociais é a única forma de ultrapassar o atraso português. Abrir portas à privatização do Ensino Superior vai representar o enterro definitivo das poucas hipóteses que este povo tem para triunfar.

Começou, há vinte e nove anos e meio atrás, este espectáculo da democracia. Hoje são talvez mais os que assistem na plateia que os que continuam no palco. Mas, antes como hoje, a peça a que assistimos é este confronto para romper com o Portugal atrasado e periférico, é esta luta pela saída do arrabalde em que continuamente nos vão aprisionando. E é por isso que os estudantes te resistem nesta guerra da mercantilização do ESP que começaste há mais de dez anos. E é também por isso que te prometo uma oposição pessoal viva, veemente, tenaz. Não por causa do meu arrabalde pessoal, felizmente ultrapassado. Mas contra o arrabalde em que ainda vive o povo da minha terra."


* Bruno Carapinha - Estudante do Ensino Superior.

segunda-feira, março 22, 2004

E se o amanhã não chegar?

Recentemente, um acontecimento na vida de uma colega minha chocou-me. Foi uma daquelas "situações limite" - a morte inesperada de um ente querido - em que, de repente, tudo passa a ser racional e cada situação vivida com uma atitude puramente determinista. Mas o que é que andamos cá a fazer? Para quê planear? Para quê fazer sacrifícios? Se nem sequer sabemos se o amanhã vai chegar...

Só nestas duas últimas semanas, houve dois acontecimentos a nível internacional que foram marcantes, não só pela sua índole mas também pelas suas repercussões. O primeiro foi o atentado de 11 de Março em Madrid, com a morte de muitas pessoas inocentes, que encontraram o fim das suas vidas através de um acto covarde, e que, de certo modo, as torna algo ignóbeis.
O segundo foi a morte do líder espiritual do Hamas, na madrugada passada. Considerado pelos israelitas como o principal causador dos atentados mártires em Israel e seus vizinhos, foi morto infamemente, atingido por 3 mísseis (deveia ser realmente grande, o senhor) causando também a morte de alguns inocentes que se encontravam nas imediações. A resposta a este acto não se fez esperar e os Palestinianos já ameaçaram "olho por olho".
Tendo em conta os últimos anos, estes factos não aparentam nada de excepcional. Contudo, existe um senão - ESTAMOS NO SÉCULO XXI.
Já lá vão os tempos em que o ser humano se preocupava com 3 coisas: alimentar-se, reproduzir-se e sobreviver até ao dia seguinte. Supostamente, nos dias que correm, as sociedades deveriam ser organizadas, a globalização ser um meio de desenvolvimento e o Homo sapiens sapiens viver em harmonia, tendo cada comunidade a sua especificidade (cultura, crenças, valores, estilos de vida) mas respeitando-se mutuamente.
Que pobre e inocente criança eu saí!!! Afinal está tudo na mesma, desde a pré-história, só mudou a fachada. Afinal, ainda tenho que preocupar-me com o amanhã. Afinal tenho que pensar duas vezes se devo apanhar o comboio, não vá um Português de origem árabe, que vive cá desde que nasceu e que há umas semanas recebeu o sinal que já lhe havia sido comunicado enquanto ainda era um embrião, ter colocado um engenho explosivo nos carris da Fertagus e progamado para explodir na hora de ponta, enquanto atravessa a ponte. Sim, porque nós também apoiámos a invasão do Iraque!

Pessimista perspectiva, esta que apresentei. Talvez até descabida e sem fundamento. Mas se virmos bem, todo este enredo a que chamamos actualidade não passa de uma roleta russa, em que nunca sabemos quando é que a bala nos vai sair. E o pior, é que muitas vezes nem a sentimos aproximar e, num ápice, tudo à volta se desmorona e, mais uma vez, nos perguntamos: Porquê?

domingo, março 21, 2004

Poesia

Dia 21 de Março, Dia Mundial da Poesia! Não podia deixar passar este dia ao lado do blog. Um dia em que comemoramos uma forma diferente de ver o Mundo... Desde que inaugurámos o blog algumas foram as oportunidades em que vos convidamos a ler poemas, hoje vou também fazê-lo, com uma diferença, das outras vezes apresentei-vos poetas, hoje apresento-vos um texto meu. Uma ousadia talvez, pois é um texto simples, mas que espero que seja do vosso agrado.

20 anos já lá vão!!!

20 anos já lá vão,
com tanto vivido e tanto para viver!
Sou um céu sem fim para aprender,
sinto-me um sol a brilhar por acreditar,
com nuvens sempre a passar!

Um Mundo tão imenso,
com questões tão banais,
com guerras tão triviais!

Um Homem tão irracional,
para as questões racionais.
Um Homem tão racional,
para as questões sentimentais!
Porquê as nuvens deste Mundo, o negro que teima em espreitar os céus?

Quero acordar, com dias de sol e dizer que sim,
com dias sem sol e dizer que sim!
Quero acordar e dizer sempre que sim...

Uma vastidão, uma diversidade, uma utopia,
para destruirmos com um pontapé na esquina,
debaixo do candeeiro centenário,
para dizermos adeus num precipício milenar.
Com que direito? Mas que raio de Mundo é este?

Não o quero assim e recuso-me a aceitá-lo assim!
Quero poder gritar que não debaixo da luz,
dar a mão no descampado,
só assim consigo admirar e viver esta grandeza de globo azul celeste...

sábado, março 20, 2004

A responsabilidade

Os últimos anos têm sido ricos em novas experiências. Digamos que a Faculdade está a superar as minhas expectativas, as vivências, a AE, e arrisco me a dizer a própria faculdade como formadora. No meio deste poço mágico de experiências que foram os últimos anos, há claramente pós mais mágicos e algumas pernas de rã. Não vou numerar todas as realidades ou tudo o que descobri, hoje vou apenas reflectir sobre algo que me intriga e ao mesmo tempo me apaixona. A noção de responsabilidade, um pó mágico!

Talvez devido à minha educação, tenho uma relação especial com ela, a responsabilidade. Mais do que exigir aos outros não me perdoo a mim próprio, como que sendo o primeiro a exigir e a punir quando ela não está presente, ou simplesmente quando a ingenuidade, ou inexperiência, brincam connosco e nos fazem percorrer caminhos que não queríamos. Digamos que quando algo que tento construir sobre alicerces de ferro, aparece-me sobre um baralho de cartas, cria em mim um sentimento de revolta imediato. Após o choque inicial, procuro ser racional e reagir de imediato, remediar se possível ou simplesmente procurar a fórmula que me silencia de novo, por ter sido capaz de restabelecer os alicerces. Hoje tive um daqueles dias, em que os alicerces se quebraram e ficou o peso em cima de mim e de mais umas quantas vigas humanas. O dia acabou o peso continua cá, no entanto descobri algo que apesar de não resolver a questão, me deixou satisfeito, há mais gente assim. Neste mundo estranho ainda há quem sinta a palavra, quem se entregue por outros, quem acredite em causas. Se calhar não entendem a razão deste desabafo. Se calhar eu também não! Mas quis fazê-lo!