O senhor revelou-se um autêntico dramaturgo, dando espaço e tempo a algumas deixas dos seus parceiros de cena e tudo, embora notoriamente um pouco atrapalhado por algumas cenas que nunca se ensaiaram; vindo, novamente, a contradizer todos aqueles que viam na figura do Presidente da República uma instituição meramente decorativa.
A minha opinião continua no entanto por se definir. Porque vejamos a lógica das coisas: se era, como acho que ainda é (veja-se novamente o caso Bombardier), o XVI Governo o pior governo “desde o tempo de D. Maria”, opinião consensual em todo o país (diga o que a excepção quiser), então o pensamento lógico consequencial que se seguiria seria mude-se então o governo. O Dr. Sampaio não achou isso e resolveu iniciar e prosseguir o processo de dissolução do parlamento, um órgão com uma legislatura das mais estáveis se sempre, sem buffets de limianos ou incoerentes altercações de votos e com alguns processos legislativos que se ouve agora dizer essenciais como a questão do arrendamento, do código da estrada, do tabaco, entre outras talvez de maior importância. E o Governo, ilogicamente, continua, nem sequer em gestão, mas na plena posse de todos os seus poderes. Mais ainda fez-se aprovar um Orçamento para a actividade de um Governo assassinado à partida. O que a preconizar-se uma vitória socialista resultará num orçamento rectificativo já por si a carregar algumas condicionantes do precedente. Pois bem este é o pior Governo mude-se o Parlamento – ilógico. Poderia até fazer sentido mude-se o Parlamento e o Governo, mas não foi assim que o Dr. Sampaio decidiu.
Hoje fui ler melhor a comunicação feita ontem ao país. Diz o Dr. Sampaio 1) que “teve em conta a avaliação que fez do interesse nacional”; 2) que ao contrário do que se tinha garantido como condição para a sua tomada de posse não se “gerou um novo governo estável, consistente e credível, que cumprisse o programa apresentado para a legislatura e fosse capaz de merecer a confiança do País e de mobilizar os portugueses para vencer os desafios inadiáveis que enfrentamos”; 3) que não existiu durante a governação um sinal de “particular lucidez nas políticas e um rigor na gestão governativa”; 4) que existiram casos de falta de “transparência, equidade e imparcialidade no exercício do poder e à prevenção de abusos”; 5) que se assistiram a “uma série de episódios que ensombrou decisivamente a credibilidade do Governo e a sua capacidade para enfrentar a crise que o País vive”, “sucessivos incidentes e declarações, contradições e descoordenações que contribuíram para o desprestígio do Governo, dos seus membros e das instituições, em geral”; 6) que “o País, que não pode perder mais tempo nem adiar reformas”; 7) que se “revelou um padrão de comportamento sem qualquer sinal de mudança ou possibilidade de regeneração, entendendo que a manutenção em funções do Governo significaria a manutenção da instabilidade e da inconsistência”; 8) entendendo ainda que “se tinha esgotado a capacidade da maioria parlamentar para gerar novos governos”.
Este último ponto é substancial para se dizer “mude-se o Parlamento” mas será realmente verdadeiro? Tenho grandes dúvidas. Num processo lógico não caberia ao Presidente da República demitir o Governo e pedir ao Parlamento a designação de um novo, ao que se avaliando da incapacidade da maioria parlamentar para tal, só então, se partiria para a dissolução desta e do resto dos parlamentares? Tudo bem que existe um factor de tempo e de premência das reformas. Mas e se a coligação ganhar com o Dr. Lopes à cabeça, miraculosamente a maioria ganhará a capacidade de gerar um novo governo, mesmo que igual ao anterior, mesmo que carregado de incapazes?
Uma coisa é certa, vêm aí o único dia em que vivemos em democracia, vamos em Fevereiro a eleições, indubitavelmente “para o bem de todos nós”.
2. Evasões
Fui esta semana ver a peça que está no teatro da Comuna: "A Cabra ou Quem é Sílvia?" de Edward Albee, vencedora do Tony 2002, com grandes interpretações do Carlos Paulo, João Têmpera e Cucha Carvalheiro. Trata dos limites da tolerância e do amor, mesmo daqueles que se proclamam mais liberais. A tolerância do amor para outra mulher, para o mesmo sexo, para uma cabra, para um pai, para um recém nascido... a tolerância e os seus limites no inconscientemente padronizado. A ver...





