"13.2 milhões de habitantes, PIB per capita de 670 USD*. 68% da população com menos de 1USD por dia. Esperança média de vida de 40.1 anos, com taxa de mortalidade infantil de 53.4% (por 1000 nascimentos) e taxa de prevalência do HIV/SIDA de 5,5%. Apenas 38% da população tem acesso a água potável e 24% a cuidados médicos. Existem 0.13 PC’s e 0.59 linhas telefónicas por cada 100 habitantes. Dos milhões de dólares que Angola recebe em Ajuda Pública, cada pessoa recebe 23 USD. 49.4% da população tem menos de 15 anos.Eram, à primeira vista, apenas números. Indicadores como tantos outros que tive de analisar e recolher e que, juntamente com as imagens difundidas pelos medias e documentos analíticos, criaram uma “imagem” da Angola que me preparava para visitar.
Toda a preparação prévia, troca de impressões e expectativas criadas não evitaram que, no Domingo 20 de Março ao sair do aeroporto a caminho do Hotel Trópico de Luanda, me sentisse atordoada com o tempo opressivo de tão quente, o ar espesso, a cor alaranjada do fim de tarde e, sobretudo, com o choque dos musseques ao longo da estrada (os remédios para a malária também não ajudaram).
Durante duas semanas foram reuniões constantes (de 21 de Março a 1 de Abril, saltando do Ministério do Planeamento para o Banco Nacional de Angola, do PNUD para o Tribunal de Contas, do Ministério dos Petróleos para o da Família e da Mulher, entre outros, passando sempre pelo das Finanças) discutindo a estratégia de desenvolvimento e maiores necessidades do sector, inteirando-se do progresso das diversas reformas ou na realização dos ODM, nunca esquecendo de averiguar o estado de execução dos projectos do BAD.
Tive de conduzir cada reunião, ouvindo o Country Economist em Francês, traduzindo (quase em simultâneo) para Português, esperar pela resposta e voltar a traduzir em Francês ou Inglês. Por vezes os interlocutores compreendiam Inglês ou Francês mas respondiam em Português. Desgastante. Mas pior foi o choque do percurso entre cada sítio.
No carro, observando as ruas e as pessoas, saltavam à vista todos aqueles números, o enorme fosso entre uma minoria com acesso à enorme riqueza do país (natural e também doada) que passa em carros de alta cilindrada pela maioria da população (os tais 68%) que vive na pobreza extrema, representada nas crianças e mulheres vendendo bananas e OMO na beira da estrada. Raparigas de 15-16 anos com filhos de meses às costas, sob um sol de 35º e 90% de humidade. E, mesmo vivendo nessas condições, privados de tudo aquilo que tenho e sempre tive como garantido, riem, cantam, dançam ao som de rádios desfeitos e da alegria de naquele momento estarem vivos. Acho que foi isto o que mais me marcou: a simples e honesta felicidade por se estar vivo de quem não conhece aquilo a que chamamos conforto e “condições de vida mínimas”.
Todos os fins de tarde tentava conhecer parte da cidade, do seu ritmo. Descer a rua com paredes marcadas por buracos de balas antigas e telhados de telha lusa, chegar à “baixa da cidade” junto ao Banco Nacional que ao final do dia lembra Lisboa. Fez-me sentir mais saudades de casa e, curiosamente, uma enorme vontade de voltar para Tunes. Fui às praias e restaurantes da Ilha de Luanda, fui jantar ao Trinca Espinhas e sair para o Palos e caminhei junto à Baía, passando pelo Rialto onde se podem comer croquetes, caldo verde e beber uma Cuca ou mesmo uma Sagres. No domingo de Páscoa fui até Cabo Ledo, passando no poeirento e colorido mercado de Benfica e no incrível Miradouro da Lua (onde certamente foram dadas pinceladas de todas as cores que associo a África e aos dias quentes de Verão). No regresso, desviei para a Foz do Kwanza.
E depois de outra semana de trabalho e terminados os 20 dias em Luanda fiquei com uma enorme vontade de voltar, de conhecer mais deste país e deste povo e de, quem sabe, contribuir para que alguns destes indicadores subam e outros desçam, fazendo com que estar sob um sol abrasador à beira da estrada com um sorriso na cara seja apenas uma opção para passar o tempo e um sinal de real esperança e confiança no futuro."




































