O Animal e o Homem!
As vivências fazem-nos evoluir, ou simplesmente mudam a nossa maneira de encarar o mundo e os seus pequenos nadas! Comecei com o Animal e o Homem! Letras maiúsculas leia-se!
Por volta de 12 de Novembro de 2002 (um pouco mais tarde talvez) tive a felicidade de receber juntamente com a minha família um cachorrito. Um Serra da Estrela puro, uma autêntica bola de pelo na altura! A junção de um sonho de infância com um ídolo de infância fez com que aquela autêntica bola de pelo se chamasse Figo. Coincidência das coincidências era viciado em jogar à bola, ou não fosse ele um cão, mas com a particularidade de só andar de voltas das bolas quando não era ele que a tinha! O nome vinha assim do meu ídolo de infância, da bola de que tanto gostava e de um pormenor engraçado: adorava figos, tinham era de ser abertos!
Lá em casa ganhámos lhe afeição! Sempre prezámos por tratá-lo da melhor forma. Espaço para correr foi algo que sempre abundou. O meu pai teimava em arranjar uma casota, em abrir lhe as portas das boxes, para que tivesse um sítio onde se abrigar da chuva se assim quisesse. Ele sempre teimou em andar à chuva! Tinha os seus brinquedos, dados nos anos, ou no Natal, sempre pela minha irmã, que se dava ao trabalho de embrulhar os mesmos. Tinha direito as umas valentes sopas, feitas de propósito pela minha mãe para ele, de resto era só ração do melhor. Muitas horas passámos a penteá-lo, a escová-lo, era uma bola que por mais que quiséssemos tinha sempre pelo. Adorava banhos quentes de mangueira, e se ele tomava banho, todos tinham de tomar banho. Banho era sinónimo de eu ir de chinelos e calções e sair de lá pingado...
Porque tudo isto? Se calhar perguntam com razão! A resposta é simples! Não se limitava a ser um cão. Era a companhia do meu pai durante a semana quando estava na terra. O meu companheiro da bola. Aquele que mantinha a pata no pé da minha mãe quando a minha mãe estava sentada, como que dizendo está guardada. O aconchego da minha irmã, que apesar da sua brutidão de cão(pesava 50/60kg), também sabia deixar que ela o agarrasse e tal como era capaz de saltar para brincar com ela, era capaz de ficar ali parado só a receber mimos. O guarda na nossa casa, da dos vizinhos, da ourivesaria, acho que posso dizer da rua! Sim da rua! Quando o levávamos a passear ao café, ao fundo da rua, os Velhos do Restelo tinham sempre as mesmas afirmações: “Cuidado com o bicho”, “Mete respeito”, “Aquilo puxava uma carroça”. As crianças por seu lado ficavam boquiabertas, aproximavam-se e perguntavam posso dar uma festa? Não tenho registos de uma que se tenha queixado! Se aleijou alguém, não foi criança e foi pela vontade do Figo em brincar...
Passou a fazer parte da família! Fazia de tudo: lambia os pratos do bife; entrava de fugido em casa, ia ao meu quarto e enrolava-se na cama até acordar-me; fazia autênticos raides pela casa a fugir do jornal que o meu pai tinha na mão por ter sujado o sofá; ladrava ao mínimo estranho que passava nas redondezas, ao mínimo bicho que rondava a casa, fosse ele um rato ou uma cobra; perdia a imponência num canto escondido quando é a altura das festas com medo dos foguetes; adorava massa de merendeiras... Acho que passava aqui o resto da noite a contar histórias! Surgiu-me uma última! Era um mimado do piorio, chegava ao cúmulo de com o focinho balançar a minha mão, até que ela saísse do bolso e lhe caísse em cima da cabeça e começasse a termideira que ele tanto gostava.
Já se perguntam, espero, porque terei escrito tal descrição, porque falo hoje pela primeira vez que tenho um cão? A resposta é simples, porque foi hoje que ele morreu com 1 anos e oito meses...
Espero que pela vossa cabeça passem agora as perguntas: como? porquê?
Porque alguém o envenenou! Porque alguém o envenenou! Porque simplesmente nunca conseguiram destrui-lo por fora! Aquele pelo e aquela imponência eram intransponíveis! Tiveram de corroe-lo por dentro! Tiveram de destrui-lo por dentro, com a cobardia de ao longe lhe atirarem algo. Por muitos dias se aguentou, levantando-se sempre que os estranhos por ali andaram, e deitando-se de seguida...esteve lá até ao fim e a pose sempre presente! Porque no fim de tudo isto não é o Animal e o Homem, como erradamente anunciei, porque afinal, Animais, somos todos!
O próximo Figo vem aí!
AS
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