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terça-feira, junho 12, 2007

Angola

"13.2 milhões de habitantes, PIB per capita de 670 USD*. 68% da população com menos de 1USD por dia. Esperança média de vida de 40.1 anos, com taxa de mortalidade infantil de 53.4% (por 1000 nascimentos) e taxa de prevalência do HIV/SIDA de 5,5%. Apenas 38% da população tem acesso a água potável e 24% a cuidados médicos. Existem 0.13 PC’s e 0.59 linhas telefónicas por cada 100 habitantes. Dos milhões de dólares que Angola recebe em Ajuda Pública, cada pessoa recebe 23 USD. 49.4% da população tem menos de 15 anos.
Eram, à primeira vista, apenas números. Indicadores como tantos outros que tive de analisar e recolher e que, juntamente com as imagens difundidas pelos medias e documentos analíticos, criaram uma “imagem” da Angola que me preparava para visitar.
Toda a preparação prévia, troca de impressões e expectativas criadas não evitaram que, no Domingo 20 de Março ao sair do aeroporto a caminho do Hotel Trópico de Luanda, me sentisse atordoada com o tempo opressivo de tão quente, o ar espesso, a cor alaranjada do fim de tarde e, sobretudo, com o choque dos musseques ao longo da estrada (os remédios para a malária também não ajudaram).
Durante duas semanas foram reuniões constantes (de 21 de Março a 1 de Abril, saltando do Ministério do Planeamento para o Banco Nacional de Angola, do PNUD para o Tribunal de Contas, do Ministério dos Petróleos para o da Família e da Mulher, entre outros, passando sempre pelo das Finanças) discutindo a estratégia de desenvolvimento e maiores necessidades do sector, inteirando-se do progresso das diversas reformas ou na realização dos ODM, nunca esquecendo de averiguar o estado de execução dos projectos do BAD.
Tive de conduzir cada reunião, ouvindo o Country Economist em Francês, traduzindo (quase em simultâneo) para Português, esperar pela resposta e voltar a traduzir em Francês ou Inglês. Por vezes os interlocutores compreendiam Inglês ou Francês mas respondiam em Português. Desgastante. Mas pior foi o choque do percurso entre cada sítio.
No carro, observando as ruas e as pessoas, saltavam à vista todos aqueles números, o enorme fosso entre uma minoria com acesso à enorme riqueza do país (natural e também doada) que passa em carros de alta cilindrada pela maioria da população (os tais 68%) que vive na pobreza extrema, representada nas crianças e mulheres vendendo bananas e OMO na beira da estrada. Raparigas de 15-16 anos com filhos de meses às costas, sob um sol de 35º e 90% de humidade. E, mesmo vivendo nessas condições, privados de tudo aquilo que tenho e sempre tive como garantido, riem, cantam, dançam ao som de rádios desfeitos e da alegria de naquele momento estarem vivos. Acho que foi isto o que mais me marcou: a simples e honesta felicidade por se estar vivo de quem não conhece aquilo a que chamamos conforto e “condições de vida mínimas”.
Todos os fins de tarde tentava conhecer parte da cidade, do seu ritmo. Descer a rua com paredes marcadas por buracos de balas antigas e telhados de telha lusa, chegar à “baixa da cidade” junto ao Banco Nacional que ao final do dia lembra Lisboa. Fez-me sentir mais saudades de casa e, curiosamente, uma enorme vontade de voltar para Tunes. Fui às praias e restaurantes da Ilha de Luanda, fui jantar ao Trinca Espinhas e sair para o Palos e caminhei junto à Baía, passando pelo Rialto onde se podem comer croquetes, caldo verde e beber uma Cuca ou mesmo uma Sagres. No domingo de Páscoa fui até Cabo Ledo, passando no poeirento e colorido mercado de Benfica e no incrível Miradouro da Lua (onde certamente foram dadas pinceladas de todas as cores que associo a África e aos dias quentes de Verão). No regresso, desviei para a Foz do Kwanza.
E depois de outra semana de trabalho e terminados os 20 dias em Luanda fiquei com uma enorme vontade de voltar, de conhecer mais deste país e deste povo e de, quem sabe, contribuir para que alguns destes indicadores subam e outros desçam, fazendo com que estar sob um sol abrasador à beira da estrada com um sorriso na cara seja apenas uma opção para passar o tempo e um sinal de real esperança e confiança no futuro."

in Newsletter Contacto - Leonor Fontoura, Economista Estagiária (Banco Africano de Desenvolvimento)




Podia falar-vos um pouco sobre o potêncial de Angola e o seu mundo de negócios loucos que está neste momento a acontecer, ou sobre o iato entre classes sociais (se é que realmente existem) e a riqueza dos ricos e a pobreza dos pobres, ou do sorriso de alegria de quem não tem nada mas tem tudo, mas este post só tem um único objectivo. Dar um grande abraço de parabéns ao meu irmão que anda por estas terras ;-) Dá-lhe "pula maluco"!

3 comentários:

Gonçalo Santos disse...

http://www.jornaldenegocios.pt/default.asp?CpContentId=297452

Angola é o país que regista a maior taxa de crescimento económico do mundo. Segundo as previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI), em 2007, Angola vai crescer a um ritmo anual de 35%.

André Silva disse...

Para quando uma viagem a Angola? há muitas estradas de terra!

Gonçalo Santos disse...

Dezembro lá estarei!

E sim, certamente irei apanhar muitas "estradas de terra"... mas cheira-me que não vou dizer muitas vezes.. "ganda música!!!..." como alguém.. (mec...) Vai ser mais aproveitar os sons africanos.. algo mais relax :p "O belo som para ouvir com as damas..."


Só um aparte, esta foto tem direitos de autor.. outro extraditado que trabalha com o meu irmão em Angola que se chama Rodrigo. Não Rodrigo Leão mas Rodrigo "O Saltador" :D