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segunda-feira, julho 13, 2009

É tão fácil argumentar...

...que o que não compreendemos está errado, e tão difícil o exercício de compreender.

No entanto, através desse exercício vemos tantas coisas novas.

4 comentários:

FM disse...

Em grande parte verdade! Mas admites que há margem para compreendermos e, ainda assim, argumentarmos que está errado? Ou compreender significa sempre aceitar que é certo? Ou então não há errado nem certo? Nunca? Agora fiquei na dúvida… =)

je disse...

Eu considero, e deixa-me fazer o 'disclaimer' que posso estar a usar mal as palavras, que compreender e aceitar que é certo não têm uma relação de implicação.

Mais, no meu ponto de vista, o certo e o errado são questões da moral e da ética, cuja existência depende do tempo. Algo é certo ou errado num tempo, antes e depois de outros tempos. Nesse espaço existe julgamento.

Compreender não é compatível com julgamento, porque o julgamento está em nós e o objecto de compreensão está fora de nós. Uma força contraria a outra

Por isso, sim, não existe certo nem errado :)

Isto não significa que uma acção não possa ser julgada como certa ou errada, mas é-o para um tempo específico. Esse tempo específico não pode ser dissociado do contexto especifico, que implica uma dada informação (sempre parcial) da realidade. A compreensão do outro (que conhecemos através das suas acções) é a expansão desse tempo, ao pormos a hipótese de que não temos toda a informação necessária para compreender a acção.

No domínio do Ser, não existe tempo, logo não existe, a meu ver, certo nem errado.

FM disse...

Concordo que o certo e errado derivam de uma moral e de uma ética que são o produto de uma época e de um tempo. A escravatura, à época, era bastante normal. Hoje não. Dizer hoje que estavam errados é não compreender que os juízos não podem fazer viagens temporais. Mais, para algumas pessoas, hoje isso continua a ser normal e desejável, apesar da maioria achar que não. E por isso eu até concordo que os juízos de valores sejam complicados [ou errados, se isso existisse ;) ] … porque dependem não só do tempo como de quem julga… Por isso, enquanto sociedade, eu até posso concordar contigo quando dizes que não existe certo ou errado…. Mas não concordo que, no domínio do ser (pelo menos o individual… dai o S ter passado a s), não exista tempo. E por isso, anulado o problema do tempo e da multiplicidade de espectadores (porque o ser individual é, por definição, individual), tu passas a poder ter certo e errado. Para evitar o argumento do não ter toda a informação para compreender a acção e de que compreensão e julgamento não são compatíveis, eu vou virar o raciocínio para dentro: eu posso considerar que determinada acção minha é errada ou certa. Eu compreendo porque é que eu a fiz, tenho toda a informação possível, e, mesmo assim, posso considerá-la de correcta ou incorrecta. O objecto de compreensão está, como o julgamento, em nós. E por isso existe certo e errado! =D Ou não?

PS: E se há certo e errado para nós, não deve ser difícil alargar o conceito… =)

je disse...

Quando eu digo que um tempo e um espaço específico quero dizer algo mais concreto do que uma época, uma sociedade ou uma cultura. Eu estou também, e na maioria das vezes, a falar do nível do indivíduo.

Deixa-me descer um nível.
Quando referes que os juízos dependem de quem julga, o que concordo inteiramente, importa perceber o que é que é um juízo. Na minha óptica um juízo é uma "opinião" de um juiz perante algo que vou chamar de "evento". Esse evento, para cada par juiz-evento, é composto por duas coisas: um facto e uma história sobre esse facto. O facto é algo inequívoco que acontece na realidade (p. ex: A fez isto, B disse aquilo, ...) e é independente do juiz. A história sobre esse facto é a interpretação que o juiz faz desse facto, que inclui a forma como o facto ocorreu ao juiz, as experiências passadas do juiz, as perspectivas e expectativas que o juiz tem para o seu futuro, etc. Ou seja, o juiz ao fazer um juízo, está a emitir uma "opinião" sobre um evento do presente (facto), que é independente dele, e sobre um passado/futuro (interpretação do facto). Na realidade o evento é apenas o trigger. A opinião vem do passado/futuro e não do evento em si. Porque o evento em si apenas existiu num dado presente e cuja totalidade de informação (realidade) é inatingível.

Assim sendo, e indo em direcção ao que referes, mesmo em relação a algo que eu faço, uma "acção minha" (que na prática é um facto que foi provocado por mim, e não "meu" - eu Sou independentemente da acção -, porque os eventos são da realidade e não nossos, se eu parto um copo é o copo que se parte), o nosso julgamento não é sobre o presente (facto), mas sobre o nosso passado/futuro e forma como eles fazem com que o facto nos ocorra. Se o nosso passado/futuro mudar, o juízo também muda.

Assim o certo/errado é um ilusão criada por nós em função do nosso passado/futuro e não tem nada a ver com a realidade (factos).

PS: Além de não termos toda a informação sobre a realidade também não temos toda a informação sobre nós (passado/futuro).