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terça-feira, janeiro 20, 2004

20 anos após a sua morte - Canções que emanam vida, vida descrita em palavras.

A palavra imortalizar é para alguns apenas uma miragem, para outros, uma certeza! Ary dos Santos é com certeza detentor da imortalidade, esse título que não se alcança definindo-o como tal, que não se alcança por se querer alcançar!

Um poeta, um boémio, um comunista até à beira da morte, um Homem apaixonando pela vida, que fez dela o que entendeu até ao último minuto, sem olhar a consequências.
Defeitos e virtudes, mas sobretudo um português convicto, que deixou os pormenores da vida que todos sentem, mas poucos descrevem, em forma de canção. Canções que emanam vida, vida descrita em palavras.

Quem não conhece: “Poeta castrado, não”; “Desfolhada”; “Os putos”; “Cavalo à Solta”... pois é, todos conhecemos e todos estes temas têm a mão deste português de nome Ary dos Santos.
Aqui ficam as minhas preferidas, que descrevem duas das coisas que nos dão razão de viver: o Amor em Cavalos à solta e os putos nos Putos.


Cavalo à solta
Minha laranja amarga e doce/ meu poema/ feito de gomos de saudade/ minha pena/ pesada e leve/ secreta e pura/ minha passagem para o breve breve/ instante da loucura.
Minha ousadia/ meu galope/ minha rédea/ meu potro doido/ minha chama/ minha réstia/ de luz intensa/ de voz aberta/ minha denúncia do que pensa/ do que sente a gente certa.
Em ti respiro/ em ti eu provo/ por ti consigo/ esta força que de novo/ em ti persigo/ em ti percorro/ cavalo à solta/ pela margem do teu corpo.
Minha alegria/ minha amargura/ minha coragem de correr contra a ternura.
Por isso digo/ canção castigo/ amêndoa travo corpo alma amante amigo/ por isso canto/ por isso digo/ alpendre casa cama arca do meu trigo.
Meu desafio/ minha aventura/ minha coragem de correr contra a ternura.

Os putos
Uma bola de pano, num charco/ Um sorriso traquina, um chuto/ Na ladeira a correr, um arco/ O céu no olhar, dum puto.
Uma fisga que atira a esperança/ Um pardal de calções, astuto/ E a força de ser criança/ Contra a força dum chui, que é bruto.
Parecem bandos de pardais à solta/ Os putos, os putos/ São como índios, capitães da malta/ Os putos, os putos/ Mas quando a tarde cai/ Vai-se a revolta/ Sentam-se ao colo do pai/ É a ternura que volta/ E ouvem-no a falar do homem novo/ São os putos deste povo/ A aprenderem a ser homens.
As caricas brilhando na mão/ A vontade que salta ao eixo/ Um puto que diz que não/ Se a porrada vier não deixo
Um berlinde abafado na escola/ Um pião na algibeira sem cor/ Um puto que pede esmola/ Porque a fome lhe abafa a dor.

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