Já que estamos numa troca de poesia e dado não ter nada de novo para escrever, devido ao epicentro de estudo e exames onde me encontro, fica também a minha sugestão com o testemunho de Natália Correia (aquela açoriana).
Recomendo, igualmente, que ouçam a música elaborada por José Mário Branco (aquele comuna) para este poema - uma das melhores músicas que com certeza já ouvi, a par com outras como a Pedra Filosofal, de José Freire e António Gedeão (enfim, músicas do tempo em que os poetas andavam ao lado dos músicos).
Embora se possa dizer que seja uma poesia de Abril penso, como alguns, que ainda mantém a sua actualidade pois ainda nos "dão-nos um mapa imaginário, que tem a forma duma cidade, mais um relógio e um calendário, onde não vem a nossa idade"...
Queixa das almas jovens censuradas
Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
E um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola.
Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma duma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade.
Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos o prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência.
Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro.
Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós.
Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa história sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra para o medo.
Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Sonos vazios, despovoados
De personagens do assombro.
Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
Para pentearmos um macaco.
Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura.
Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante.
Dão-nos um nome e um jornal,
Um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino.
Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida. Nem é a morte.
Natália Correia - Poesia Completa
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