Vai com uns dias de atraso, mas os computadores pregam, partidas.
Já lá vai o dia 25 de Dezembro de 2003! Tenho passeado nas ruas de Lisboa e parece que já ninguém se lembra que é Natal... Sim eu sei que o Natal devia ser todos os dias, mas isso não acontece, por isso só o peço a preceito nesta quadra. Continuando! Os enfeites permanecem, as ruas incandescentes cheias de estrelas, cheias dos anjos mensageiros, ou com simples rastos luminosos, permanecem ainda a enfeitar Lisboa. A cidade brilha à noite, afinal é Natal. Direi mesmo que ainda cheira à fobia das compras, agora com promoções. E é exactamente neste ponto que reside toda a ironia desta quadra.
Diziam os meus avós pelo Natal: André aqui vai uma lembrançazinha! Eu sempre pensei, que aquilo que me estavam a dar era dado com amor, por isso sorri quando vi o serrote. Por isso sorrio quando a minha avó vem a correr até ao carro quando estou prestes a sair para Lisboa e ela me põe no bolso 25cêntimos e diz - “é para o café”. Não imaginando ela, que com sorte compro um café pelo dobro do preço. No entanto o sorriso permanece lá! Afinal foi com amor, afinal aquele gesto da mão rugosa a acariciar-me a cara não tem com toda a certeza um preço... A diferença está aqui! Os meus avós conseguem dar, pela razão que o Natal supõe. Durante todo ano o fazem e nesta altura, especialmente, o fazem: a mim com o serrote; ao bêbado da terra (todas as terras tem um) com uma refeição quente no dia 25 de Dezembro; aos necessitados com roupas. Cada qual à sua maneira tem o seu gesto! Mas esqueçam tudo isto, porque afinal eu estou em Lisboa e já no dia 2 de Janeiro!
O Natal já lá vai, mesmo aquele das prendas por favor, porque senão a Tia Dora vai achar mal! Mesmo aquele em que o Joãozinho foi a mando da Tia Augusta dar o troco do Peru recheado com ameixas que acabaram de comer no restaurante ao pobre – “Filho hoje é Natal, temos de dar uma refeiçãozinha ao pobre, toma 20 cêntimos” – seguidamente segue com a família para o seu BMW com a consciência limpa, afinal os 20 cêntimos pagam o belo do bacalhau com natas...
Estava aqui a pensar para os meus botões, afinal de contas, o Natal é bem capaz de ser todos os dias. Vejamos! No próximo mês quem comprou a prenda da Tia Augusta, vai se queixar todos os dias do preço, da mesma forma que se queixa quando na esquina ao sair do metro um assaltante lhe levou a carteira. Daqui a uma semana a Tia Dora deixa cair 20 cêntimos no chão, mas azares dos azares, está sozinha e a humidade não a deixa debruçar-se, parece que vão ficar por aí - Sr. Taxista sff pare!!!
Afinal estes episódios, parecidos ou não, repetem-se durante todo o ano!
Pois é quem disse que o Natal não é todos os dias!
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