«Beijar!, linda palavra!... Um verbo regular
Que é muito irregular
Nos tempos e nos modos
Conheço tanto beijo e tão dif´rentes todos!...
Um beijo pode ser amor ou amizade
Ou mera cortesia,
E muita vez até, dizê-lo é crueldade,
É só hipocrisia.
O doce beijo de mãe
É o mais nobre dos beijos,
Não é beijo de desejos,
Valor maior ele tem:
É o beijo cuja fragância
Nos faz secar na infância
Muita lágrima...feliz;
Na vida esse beijo puro
É o refúgio seguro
Onde é f´lizo infeliz.
Um beijo d´amor é delicioso instante
Que vale muito mais do que um milhão de vidas,
É bálsamo que sara as mais cruéis feridas,
É turbilhão de fogo, é espasmo delirante!
Não é um beijo puro. É beijo estonteante,
Pecado que abre o céu às almas doloridas.
Ah! Como é bom pecar coas bocas confundidas
Num desejo brutal de carne palpitante!
Os lábios sensuais duma mulher amada
Dão vida e dão calor. É vida desgraçada
A do feliz que nunca um beijo neles deu;
É vida venturosa a vida de tortura
Daquele que coa boca unida à boca impura
Da sua amante qu´rida, amou, penou, morreu.
Desejava terminar
A beijar a minha amada,
Mas como não tenho amada,
Vossência é que vai pagar...
Não se zangue. A sua face
Consinta que eu vá beijar...
... ...........(atira-lhe um beijo)
Um beijo pede-se e dá-se,
Não vale a pena corar...»
Mário de Sá-Carneiro
Fevereiro de 1910
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