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quinta-feira, janeiro 22, 2004

O timing de um salto



Desde pequenos começamos no infantário a acompanhar um grupo hermêutico da nossa idade, por volta dos 6 estamos todos na 1.ª classe, aos 10 entramos no 5.º ano, aos 12 no 7.º ano e aos 18 é nos pedido que entremos na faculdade. É óbvio que generalizo muito, mas o que quero frissar é que é inegável o facto de sermos forçados a acompanhar este grupo, que inevitávelmente será, em muitos dos casos, de amigos, numa caminhada de desenvolvimento pessoal.

Essa pressão (talvez seja um termo exagerado que retiro), essa motivação é também sem qualquer dúvida benéfica e do melhor que pode existir numa época da vida em que tendencialmente ainda não conseguimos impor a nós próprios metas e objectivos, em que literalmente poderemos dizer que "não sabemos o que queremos fazer da vida".

Mas chegará também uma altura em que os conceitos, parâmetros, estandartizações e objectivos se baralham de tal forma dentro do nosso espírito (quantas vezes erradamente e fora do tempo) que surge-nos aquele tipo de ideias "eu já não preciso de seguir a mesma caminhada que os outros" ou "porque é que ainda tem de existir um prazo para tudo" - uma emancipação pessoal, real ou não, que faz com tentemos a nossa tarde e iniciemos um percurso que, mais cedo ou mais tarde, será autónomo, "livre" (ou não), resumindo - pessoal.

A questão está porém em saber quando dar o salto, descobrir o timing certo desse momento (que penso que não será igual para toda a gente), não adiantar o processo evolutivo ou até mesmo atrasar poderá constituir um dilema para muitos dos conscientes ou inconscientes.

E é neste momento que atravesso que me surgem estas dúvidas... Já não posso dizer que "não sei o que quero fazer da vida" tenho de saber o que vou realmente fazer da vida. Da negação de um futuro que estava longe nascem as perguntas daquilo que é já agora.

Escrevo isto e aparece-me aquela imagem daquelas grandes manadas de gado a ser recolhida do pasto, metem-nos num corredor largo que se vai estreitando até passar só um de cada vez, depois numa encruzilhada abrem só a porta do grupo a que o animal pertence procedendo á sua selecção, enfim nada que interesse...

O que quero dizer e o que me motivou este post foi a breve (espero eu) passagem de uma crise existencial estúpida provocada pelo estudo para os exames (aqueles pensamentos que surgem quando as ideias fogem-nos para outras paragens que não as letras em que nos concentramos). Tenho cinco anos para fazer o curso, idealmente deveria fazê-lo naquele tempo e bem feito, mas como dizem os economistas "os recursos são inevitávelmente limitados" e a minha participação noutras actividades do tipo extra-curricular não tem proporcionado tempo para tudo, entre o fazer dentro do prazo e o fazer bem acho que a escolha acertada é fazê-lo bem e saber do que faço independentemente do tempo que demore (nada de exageros também), e assim tenho feito... Tenho uma média boa mas algumas cadeiras em atraso e o facto de o meu inconsciênte anida estar condicionado ao cumprimento do prazo do curso deixa-me algo angustiado.

Teremos de apostar na nossa realização pessoal só depois de concluir um curso? Custará muito evoluir pessoalmente através de actividades que não as de um curso e que já farão parte do nosso currículo pessoal, daquilo que diremos que "já fizemos" ou "já fomos", prejudicando contudo um prazo que nos é imposto não o farei em cinco mas em seis? Não mas custa...

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